Ontem adormeci a pensar no galo que muitas vezes me acorda antes do toque de despertar das quatro da matina. A depressão Martinho desassossegava-me o sono nos estores, muito trabalho esperava bombeiros, repórteres e meteorologistas, o grupo Os Monhacas avisaria na rede que eram muitas as árvores caídas na N2 entre Barranco do Velho e Vale da Rosa, fora o camião tombado em Vieirinho, a dada altura ocorreu-me que o galo cantor podia ser levado a mais de cem à hora, pelos ares. Pois se o vento tão forte arranca do chão árvores portentosas, mais facilmente leva para longe um galo cantor, mesmo de polainas. Os galos não têm raízes, nada os prende ao chão, senão o milho e a vaidade. E o vento não tem maneiras.
Esta referência às polainas do galo fui roubá-la a um galaroz do Aquilino em “Andam Faunos pelo Bosque” e é uma vénia ao senhor Manuel da Courense, homem de leitura e de cuidada memória, com quem gosto de trocar ideias sobre as palavras de que nos vamos perdendo. Ainda ontem nos demorámos à volta desta precisa palavra “polainas” que eu usara na crónica, na véspera, envolvendo as pernas de Calisto Elói, tal como Camilo as calçara, “abotoadas de madrepérola”. O dia pede polainas, vamos a isso.
Eu cuido que o galo lá do bairro não tem concorrência. Não tem rival nas redondezas. Não há nos quintais do bairro disputa acesa como aquelas que se sucedem entre o galo da Rita Simas, que tinha “uns barbilhões tão compridos e vermelhos que parecia andar sempre a rir-se do mundo” e o galo “pernaltudo” da Rosa Salamim que o Aquilino descreve com “um penacho mais rútilo e vistoso que mestre de filarmónicas”.
Aquilino confidencia que o galo do Rabecas, com a crista “talhada em papoila, pernas grossas e bem calçadas”, era “gordo como lontro” e alvitra que seria acertado juntar-lhe, no prato, orelha de porco e feijão manteiga. Não pretendo puxar a conversa para a mesa, mas para o
poleiro das cantorias, para a disciplina que o Aquilino refere como o “latim das capoeiras”. Mas hei-de perguntar ao senhor Manuel se, lá para as suas bandas minhotas, também dizem lontro em vez de lontra, isto sem qualquer preconceito de género.
Quanto ao mais, sossegai: o galo cantor do meu bairro sobreviveu ao sopro feroz de Martinho. Às quatro da manhã, cantava como um tenor lírico, por certo anunciando a primavera.