Canção n.º 1: A Cantadeira, “Responso à Mulher”
Adufe e gaita-de-foles desenham a paisagem sonora de “Responso à Mulher”: novo sangue para o folclore português, para cantar o legado das mulheres marginalizadas – e só mulheres pisam este palco. Projetada sobre o palco, a imagem de Amélia Mendonça, fundadora das Adufeiras de Monsanto; o cenário compõe-se com um vestido vermelho, bordado à mão, da criadora Joana Béhen.
Canção n.º 2: TOTA, “á-tê-xis”
Em 2021, EU.CLIDES esteve no Festival da Canção por convite de Pedro da Linha; quatro anos depois, retribui o favor, chamando Tota – o seu braço-direito ao vivo e em estúdio. O seu figurino é uma homenagem àquele que Almada Negreiros usou na conferência “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”; rodeiam-no “os homens cinzentos” que Michael Ende imaginou no romance Momo.
“Á-tê-xis” é, por extenso, ATX: um protocolo de placa-mãe e fonte de alimentação – mas nada temam, este poema não é para especialistas em tecnologia. “Não sou programador, nem ando no Técnico”, brincou Tota na conferência de imprensa. A canção denuncia um “futuro fascinante” que se extraviou, onde a tecnologia complementaria o ser humano, em vez de ameaçar o seu crescimento.
Canção n.º 3: Bombazine, “Apago Tudo”
É graças ao disco sound refrescante – por um filtro indie – que os Bombazine trouxeram ao Festival da Canção que há quem lhes chame os “Parcels de Oeiras”; tal como os australianos, ou como os Perpétua no Festival de 2024, entregam-nos a festa numa bandeja. “Curiosamente, é a primeira vez que usamos bombazine”, revelou a banda à imprensa, entre risos.
Desde 2022 em atividade, são eles Filipe Andrade (no baixo), Manuel Figueiredo (teclas), Manuel Granate (bateria), Manuel Protásio (guitarra) e Vasco Granate (voz e guitarra). “APAGO TUDO” é uma manifestação de otimismo perante as dúvidas e os impasses, mas também da procrastinação para prolongar os bons momentos.
Canção n.º 4: emmy Curl, “Rapsódia da Paz”
Sete anos depois da sua primeira participação no Festival, enquanto Catarina Miranda (“Para Sorrir Eu Não Preciso de Nada”), emmy Curl põe a sua identidade artística em primeiro plano. A cantautora e produtora transmontana propõe uma rapsódia, isto é, uma composição que se vai transformando, com uma estrutura aberta e fluida.
Esta é pop em jeito de encantação, que retira do folclore aquilo que mais tem de esotérico – e marca a primeira vez que ouvimos mirandês numa canção a concurso no Festival. A proposta cénica é uma extensão de Pastoral, álbum que editou em 2022, com inspiração de Loie Fuller, pioneira da dança moderna e da iluminação de palco.
Canção n.º 5: Inês Marques Lucas, “Quantos Queres”
No palco do Festival, música e imagem vivem em simbiose, e Inês Marques Lucas respeita a regra. Em “Quantos Queres”, a cantautora de Fátima imagina uma relação embargada, onde alguém procura talhar a outra pessoa, não percebendo que a deforma: em cena, vai adaptando o seu guarda-roupa, numa “performance muito pessoal”, que questiona a feminilidade, a masculinidade e a androginia, segundo disse na conferência da imprensa.
Canção n.º 6: Fernando Daniel, “MEDO”
Fernando Daniel não é estranho a concursos: venceu a quarta edição do The Voice Portugal, onde agora integra o júri. “MEDO” é a sua aposta para o Festival da Canção, que interpreta em isolamento, para depois quebrar a quarta parede. Cantada a plenos pulmões, trata-se de uma meditação sobre fé e crença – e que não quis ilustrar de forma demasiado óbvia.
“Não queria dar um sermão a ninguém, ou fazer algum tipo de milagre”, disse o artista na conferência de imprensa, acrescentando que no coração de “MEDO” está o voto de “não desistir de algo ou alguém que nos leva no sentido certo”, apesar das dúvidas.
Canção n.º 7: Luca Argel feat. Pri Azevedo, “Quem Foi?”
Luca Argel na voz, Pri Azevedo no acordeão, roupa branca e uma mensagem clara: prevaleceu o objetivo de “não criar nada de muito distrativo” para a interpretação deste tema, disse a acordeonista à imprensa. “Quem Foi?” equilibra a doçura da interpretação com a contundência dos versos, manifesto subtil contra a xenofobia. Reivindicação do trabalho invisível, feito por quem não é tratado de igual para igual; a ingratidão e o apagamento do passado. “A ideia é desarmar a pessoa que ouve”, acrescentou Luca Argel.
Canção n.º 8: NAPA, “Deslocado”
Os NAPA estreiam-se no Festival da Canção com uma homenagem a quem se sente “Deslocado”, quem sai do seu torrão natal para perseguir novos horizontes e oportunidades. Tocada em tons de sépia, apropriadamente nostálgica, é a balada de quem regressa – e não só no caso autobiográfico dos madeirenses, porque “rapidamente [perceberam] que era um sentimento transversal ao mundo inteiro”, como afirmaram à imprensa.
Canção n.º 9: Diana Vilarinho, “Cotovia”
Em “Cotovia”, Diana Vilarinho exalta a mulher, pela via do folclore afadistado. A simplicidade, num xadrez preto-e-branco, foi palavra de ordem na interpretação deste tema, que nasceu de uma citação de Meryl Streep: “Um pássaro pode cantar em Cabul, mas uma rapariga não, e uma mulher [também] não em público.”
Canção n.º 10: HENKA, “I Wanna Destroy You”
“Temos que abanar Portugal”, dirigiu-se HENKA ao país, depois de ter apresentado uma das raras canções de metal na história do Festival da Canção (embora seja mais comum na Eurovisão). Um som potente e cru, repleto de gritos industriais e energia punk.