Ao fim da noite de sábado (21), foram apurados os primeiros finalistas do Festival da Canção 2026. Da primeira semifinal, que teve lugar nos estúdios da Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, sagraram-se vitoriosos Dinis Mota, Nunca Mates o Mandarim, EVAYA, André Amaro e Marquise. Avançam para a final de 7 de março, onde vão disputar uma ida à Eurovisão de 2026, em Viena. Para trás ficaram os Bateu Matou, Mário Marta, e o trio AGRIDOCE.
A canção número três era de EVAYA, mas acabou por ser interpretada apenas no fim do alinhamento. Os problemas técnicos não atrapalharam em demasia o “Sprint” da cantautora e produtora. Estava “de coração aos pulos. Parecia que estava a ir para outra dimensão”, assim descreveu à Antena 1, e essa dimensão será mesmo a final do Festival da Canção.
O televoto e o voto online (novidade desta edição) asseguraram o lugar de André Amaro na gala de 7 de março. Anunciada por último, “Dá-me a Tua Mão” foi a seleção do público. À Antena 1, o músico do grupo Sangre Ibérico descreveu essa última revelação como “o momento do culminar de muita dedicação e muito acreditar. Rebenta ali tudo ao mesmo tempo.” Sem lágrimas mas mantendo o tom incrédulo, os colegas Marquise deixaram cair a atitude imperturbável e despertaram para a realidade: “Nos primeiros ensaios, eu não estava cá”, disse-nos entre risos a vocalista Mafalda Rodrigues, como se de uma experiência fora de corpo se tratasse.
Ainda assoberbado pela notícia, Dinis Mota fazia mentalmente a retrospetiva de toda a sua carreira até ao momento. “Vamos manter o mesmo ritmo, a mesma dança”: teve êxito com o baile de “Jurei”, um cabaret de latinidade, e é a esse lugar que promete voltar para a final. Também a encenação da banda Nunca Mates o Mandarim, para a canção “Fumo”, se vai manter contida e sem chaves de leitura para o simbolismo do garçom: “Preferimos deixar [isso] em aberto”, referiu o vocalista João Amorim.
Além do público, competiu ao júri decidir: tirando o jornalista musical Mário Rui Vieira, consistiu inteiramente de músicos com experiência de Festival, como Lena d’Água, Joana Espadinha e Tó Cruz. Diana Vilarinho transitou da final de 2025 para o júri de 2026, com a memória ainda fresca: “Lembro-me muito, muito bem daquilo que os concorrentes estão a sentir do lado de lá. Até é um pouco estranho estar na posição de os avaliar agora.”
Um Festival todo-o-terreno
No pós-show da Antena 1, o comentador Herberto Quaresma caracterizou o repertório finalista como “votado à música alternativa”, notando que, mais tarde, em cenário eurovisivo, essas canções tendem a “suscitar uma especial atenção”.”A canção é uma emoção: é um produto de três minutos em que se tenta contar uma história”, acrescentou, “e o Festival é um desfile de canções”, que “transcende a notoriedade dos músicos”.
Vasco Palmeirim foi o pivot da emissão, que contou ainda com Alexandre Guimarães e Catarina Maia. Entre a televisão, a radiodifusão e o online, o Festival da Canção mantém-se uma operação todo-o-terreno. Noémia Gonçalves conduziu o pós-show da Antena 1, rádio oficial do Festival da Canção, com comentários de Herberto Quaresma e reportagem de Andreia Rocha – que também apresenta o podcast deste evento, “Falar pelos Dois”, ao lado de Bernardo Pereira.
À sua 60.ª edição, o Festival da Canção saiu das instalações da RTP para regressar a um cenário histórico. Maria Ferreira, Diretora de Música e Artes de Palco da RTP, assinala as diferenças entre jogar “em casa”, nos estúdios da RTP em que “operamos de uma forma diária”, e assumir o espaço da Valentim de Carvalho, onde os bastidores são mais limitados, mas que amplia “a capacidade para [receber] o público”. Nas palavras de Nuno Galopim, consultor da RTP para o Festival, recuperou-se a “relação com uma plateia maior”, como sucedera em Portimão (final de 2019) e em Elvas (final de 2020).
Um Festival com memória
Os estúdios de Paço de Arcos não foram apenas palco para as oito canções a concurso, tendo acolhido duas homenagens especiais no decurso da cerimónia. O pianista Júlio Resende e o tenor Paulo Lapa, concorrente do The Voice Portugal 2023, lembraram o Festival de 1976 (então intitulado “Uma Canção para a Europa”, apresentado por Ana Zanatti, Eládio Clímaco e o Maestro António Victorino d’Almeida), ao reinterpretarem as oito canções a concurso nesse ano. Todas na mesma voz, como em 1976 havia sido Carlos do Carmo o único intérprete.
A cargo de Luca Argel, Nani Medeiros e Karla da Silva ficou um tributo aos festivais de música popular brasileira (MPB) dos anos 1960, com um papel determinante na definição do cânone: por ali passaram nomes vitais, ainda em processo de afirmação, como Chico Buarque, Tom Zé ou Rita Lee (com Os Mutantes).
O Festival da Canção faz mais duas paragens, tanto na RTP1 como na Antena 1: a segunda semifinal decorre no próximo sábado (28 fevereiro), antes da final a 7 de março.