Imagem de Rui Miguel Abreu parte “Em Busca das Canções da Liberdade”
Duo Ouro Negro na capa do single "Bailia dos Trovadores" (1974, EMI).

Rui Miguel Abreu parte “Em Busca das Canções da Liberdade”

Que música acompanhou as lutas pela independência da África lusófona? O novo programa da Antena 1 reconstitui essa banda sonora.

Imagem de Rui Miguel Abreu parte “Em Busca das Canções da Liberdade”

Rui Miguel Abreu parte “Em Busca das Canções da Liberdade”

Que música acompanhou as lutas pela independência da África lusófona? O novo programa da Antena 1 reconstitui essa banda sonora.

“Foi a 11 de Novembro de 1975 que Agostinho Neto declarou, num histórico discurso, a independência de Angola, iniciando aí a nova era de um país a que Portugal está há muito ligado. Em Portugal, no ano anterior, o 25 de Abril representou igualmente uma cisão na história, marcando o início de uma era democrática que transformou definitivamente o país.”

Este é o mote para a estreia do novo programa de Rui Miguel Abreu. Depois de oito jornadas Num País Tropical, em 2022, o crítico musical regressa à Antena 1 para ir Em Busca das Canções da Liberdade: uma história contada em seis episódios, sempre ao fim de segunda-feira, depois das notícias das 23h. Sem abrir o jogo por completo, pedimos mais algumas pistas ao autor do programa.

“1975 era ainda um ano quente no que à questão da liberdade dizia respeito”, recorda Rui Miguel Abreu, que então tinha seis anos de idade. “Lembro-me bem de cantarmos algumas dessas canções no banco da escola. ‘Uma gaivota voava, voava'”, recita, evocando Ermelinda Duarte e o seu alegre manifesto em Somos Livres. Em casa dos pais, escutar José Afonso facilitou uma “tomada de consciência” mais rigorosa: a apetência da música como “veículo de liberdade. Lembro-me de ouvir o meu pai, a minha mãe e os meus avós dizerem que havia certas canções que não se podiam ouvir noutro tempo. Depois, é claro, celebraram a chegada de um novo dia em que já se podia ouvir todas elas.”

A cada 25 de Abril, Portugal recupera e abraça essas melodias: José Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho não são vozes que jazem num arquivo, estão vivas. Abraçá-las é reconhecer a luta, o poder do cravo. Mas porque é que restringimos este gesto à música dita nacional? “Nos últimos anos, graças à tomada de uma nova consciência no nosso país — de que é necessário um debate sobre este período da nossa história — fui lendo em cartazes de manifestações ou em posts de Twitter, o que vai dar quase ao mesmo, coisas como ‘o 25 de Abril nasceu em África’.” Vários impulsos não só para estudar a luta independentista, como escutar os discos que a serviram enquanto banda sonora.

Duo Ouro Negro paredes-meias com José Mário Branco

“O que eu tento mostrar com este programa é que essa pulsão faz parte de todos os povos, liga-nos a todos”, acrescenta. “Na primeira metade dos anos 70, também a África lusófona procura encontrar um lugar no futuro. A música refletia isso também.” Foi assim que, para Rui Miguel Abreu, nomes como Duo Ouro Negro, Cesária Évora, Bonga, David Zé ou Bana se tornaram companheiros de “Zeca e Zé Mário”: um cancioneiro de liberdade em franca expansão. “São artistas que lutaram por essa liberdade, e que fizeram do sonho dessa liberdade a grande inspiração para a música que criaram.”

Nos dois primeiros episódios de Em Busca das Canções de Liberdade, Angola é o território de investigação; depois, a série avança para Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, e São Tomé e Príncipe. Rui Miguel Abreu decidiu “contar a história através dos artefactos que resistiram ao tempo e que permitem, como documentos que são, olhar para essa história” — ou seja, por via dos discos.  Foi com a orientação de músicos e melómanos como Francisco de Sousa (Celeste/Mariposa), Milton Gulli (Cacique’ 97) ou Edgar Raposo (Groovie Records) que alinhavou esse percurso — mas não se trata de um trilho pelas raridades analógicas, perdidas nas areias do tempo. “Claro que muita desta música é rara, sobretudo na sua forma física, são discos difíceis de apanhar, mas a mim interessou-me mais pensar que há muito tempo que alguma desta música já não se escuta em rádio.”

“Isso agradou-me: trazer de novo para a conversa música que há muito está afastada das nossas atenções”, conclui. Na ressaca de abril, aproveitemos a nossa atenção redobrada à liberdade, e aprendamos novas melodias.

Texto de Pedro João Santos

Esta segunda-feira, depois das 23h, a Antena 1 emite o primeiro episódio de Em Busca das Canções da Liberdade. Um programa de Rui Miguel Abreu.