Esta semana, motivada pela sua distinção nos Play 2025 com o Prémio Carreira, a Antena 1 revisita a obra de José Cid, recorrendo aos discos menos óbvios da sua extensa discografia – tanto a solo como no Quarteto 1111. Um desses títulos é o seu álbum homónimo, de 1971.
É frequente encontrarmos discos como “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte” e o álbum de estreia do Quarteto 1111 em listas que consagrem o melhor da música feita em Portugal. Porém não se esgotam aí os episódios mais marcantes da obra de José Cid e o seu primeiro disco a solo, editado em 1971, não só é um dos mais significativos momentos de toda a sua discografia como representa mesmo uma das peças fulcrais no processo de transição para o formato do LP de ideias nascidas em terreno pop/rock deste lado da fronteira. Com o título “José Cid”, mas muitas vezes designado como “A Palha” (dado o facto de o vermos, na fotografia da capa, usando uma coroça), o disco surgiu já depois de editado o primeiro álbum do Quarteto 1111 que, além das visões estéticas, desafiara também os códigos temáticos vigentes (leia-se autorizados pelo regime) abordando temáticas como a emigração, o colonialismo ou o racismo. Em momento de trabalhar a solo José Cid não voltou costas ao seu tempo, mas neste seu primeiro LP em nome próprio alargou mais ainda o leque de assuntos e caminhos a tomar pela música.
A maioria das canções são de sua autoria, mas no alinhamento encontramos um poema de D. Diniz numa adaptação de Natália Correia (“Dom Fulano”, que seria editado em single) e outro de Jorge Amado (“Gabriela Cravo e Canela”), assim como versões suas de canções do moçambicano Fany Mpfuno (“Ni Helie”) e Gilberto Gil (“Volkswagen Blue”), esta última aqui presente depois de um encontro de José Cid com o autor, Caetano Veloso e Maria Bethânia no Estoril. No alinhamento encontramos ainda uma nova versão de “O Dragão” (de Jorge Moniz Pereira), que o Quarteto 1111 já havia gravado. Usando uma nova mesa de mistura recentemente instalada nos estúdios da Valentim de Carvalho, José Cid concebeu um álbum no qual chamou a si a execução de todos os instrumentos, contando no processo de gravação com a preciosa colaboração de Hugo Ribeiro (o mítico técnico daquele estúdio). Sem terem passado pelas suas mãos estão apenas os instrumentos da orquestra que Pedro Osório então juntou ao disco.
“José Cid” é um caleidoscópio de acontecimentos. A voz de José Cid, juntamente a sua performance instrumental e composição, fazem o corpo agregador de um alinhamento de horizontes vastos e sem temor de experimentar e ser ousado. Um dos melhores exemplos desse impulso – comum, de resto, à obra recente do Quarteto 1111 – revela-se na complexidade formal que encontramos em “Lisboa Ano 3000”, ainda sob ecos recentes do psicadelismo mas a olhar já para outras possibilidades plásticas do som e da escrita. Do álbum foram extraídos os singles “Dom Fulano” (1971) e “Olá Vampiro Bom” (1973). Juntamente com “José Cid” os EPs “Lisboa Perto e Longe” (1971), “História Verdadeira de Natal” (1971) e “Camarada” (1972) traduzem um tempo em que reconhecemos em José Cid uma das principais forças na construção de um pop/rock português. O disco teve recentemente uma (magnífica) reedição em vinil pela Armoniz. Mas é uma pena não haver uma edição antológica – em vários suportes – que junte todos os elementos desta etapa na sua discografia.