“Rosa”, dos alentejanos Bandidos do Cante, é a música vencedora do 60.º Festival da Canção. A decisão teve lugar na final deste sábado (7 março) – dia do 69.º aniversário da RTP – apresentada por Filomena Cautela, Vasco Palmeirim, Alexandre Guimarães e Catarina Maia.
“Fizemos isto com um objetivo: levar mais longe o nosso cante e as nossas tradições, que ouvimos desde miúdos, com os nossos avós e os nossos pais”, disse Francisco Raposo, um dos Bandidos, no pós-show da Antena 1. “Sair vitorioso do Festival é o nosso maior orgulho, é algo para contar aos nossos filhos e aos nossos netos”, continuou o colega Francisco Pestana, “com o coração na boca” no rescaldo da vitória: “Chegar a este palco e ter este troféu é um orgulho enorme e quero também dar uma palavrinha a toda a malta do Alentejo”.
A Antena 1, rádio oficial do Festival, acompanhou a noite com a transmissão integral da cerimónia, numa emissão especial conduzida por Noémia Gonçalves, com reportagem de Andreia Rocha e comentários de A Cantadeira (Joana Negrão, participante na edição de 2025). Reagindo em direto, Joana Negrão salientou o poder comunicativo de “levar à Eurovisão uma proposta enraizada na nossa cultura”: focando não o fado, mas outro Património Imaterial da UNESCO, o cante alentejano.
A passagem de testemunho dos NAPA
Após um 2025 triunfante, os pesos-pesados NAPA regressaram ao Festival da Canção. Com o tema vencedor de 2025, “Deslocado”, acumulam dois grandes títulos: dentro dessa safra eurovisiva, foi a canção mais ouvida nas plataformas de streaming, e tornou-se também a mais escutada em toda a história do Festival da Canção. O rajão e a braguinha madeirenses deram o mote para esta versão de “Deslocado”, inicialmente acústica, antes de se revelar na força completa do arranjo já conhecido.
O troféu transitou dos NAPA para os Bandidos do Cante, do sotaque madeirense para o sotaque alentejano. Para o vocalista e guitarrista Guilherme Gomes, trata-se do “fechar de um ciclo, [o culminar] deste ano mirabolante que tivemos” – incluindo, no passado mês de janeiro, concertos nos Coliseus, e em breve um novo álbum. “Foi um prazer enorme fazer parte da história deste festival, e seguimos de cabeça erguida por termos feito um bom trabalho e entregar esse testemunho.” (O pianista Lourenço Gomes integrou a emissão especial da Antena 1 na segunda semifinal do Festival da Canção.)
Ontem, hoje e amanhã no Festival
Empunhando o microfone da Antena 1 nos estúdios da Valentim de Carvalho, Andreia Rocha entrevistou várias das figuras determinantes do concurso (apesar de não ter chegado à fala com o Batman e o Flash que dançavam na plateia).
Nuno Galopim caracterizou esta edição como a prova de que “ao fim de 60 anos, este formato está vivo e consegue retratar o que é a música portuguesa.” Nas palavras do consultor da RTP para o Festival, “promove a criatividade no prime time da televisão, mas não se limita a isso: as composições que aqui nascem tem uma vida posterior ao programa, tocam na rádio, entram nas nossas vidas, ajudam a construir uma memória coletiva. Esse é o corolário de não só três programas, mas muitos meses de trabalho.”
“São muitos dias, muitas semanas a preparar isto até muito tarde”, resume Alexandre Guimarães, um dos apresentadores do Festival e uma das vozes das manhãs na Antena 3, “desde o café antes da reunião de alinhamento, até entrar em direto para a RTP1. Não há um momento que me faça repensar. É um privilégio estar no programa de entretenimento mais antigo da televisão portuguesa, e dividir planos com Catarina Maia, amiga minha da rádio, com o Vasco Palmeirim e a Filomena Cautela.
Gonçalo Madail, atual diretor de programas da RTP2 e coordenador do Festival até ao ano passado, confessou a estranheza de “não pôr as mãos na massa”, mas aproveitou a oportunidade de sentir que “o festival ainda mexe com o público”, de um jeito quase “desportivo”: “Ouvir os comentários, as ansiedades, o sofrimento, as críticas, as revoltas, algumas pessoas indignadas.”
Da caixa mágica para a aparelhagem
Até ao último momento, o Festival da Canção desdobrou-se entre a televisão, a radiodifusão e o online: além das emissões especiais e dos conteúdos para redes sociais, a Antena 1 é a anfitriã do podcast oficial do concurso, “Falar pelos Dois”, apresentado por Andreia Rocha e Bernardo Pereira.
“Não consigo distanciar-me”, admitiu A Cantadeira no pós-show da Antena 1, recordando a sua participação em 2025 com o tema “Responso à Mulher”. “Sinto um misto de ansiedade e excitação, a adrenalina que a final deve acarretar para cada concorrente.” A propósito da final, concordou com Noémia Gonçalves sobre a evolução das atuações desde as primeiras semifinais: “É produto da repetição e do pensamento, de aprimorar as performances, apesar dos nervos acrescidos na final”, discutindo o exemplo de Evaya e do que Noémia Gonçalves designou “um videoclip realizado ao vivo”.
Finda “a tensão no estúdio” e dispensada a calculadora para somar os pontos na tabela, ficou uma edição marcada por “cante, pop, música com ascendência latina, eletrónica, houve de tudo. É a variedade que nos define”, resumiu A Cantadeira, “e o Festival da Canção permanece uma mostra da diversidade da música portuguesa.”
Teletransporte direto até 1986
O grupo Throes + the Shine encabeçou um tributo à pop internacional de 1986, com uma panóplia de convidados. Selma Uamusse irrompeu pelo palco a entoar o clássico do hip hop “Push It” das Salt-n-Pepa, seguindo-se Catarina Salinas, vocalista dos Best Youth, para uma versão acelerada do incontornável “Kiss” de Prince.
“Esse ritmo está doce, mas acho que o people quer mais melaço”, disse o vocalista Mob Dedaldino, um chamamento para Samuel Úria, que se lançou na malha de guitarra de “Walk This Way”, mítico duelo entre os Aerosmith e os Run-D.M.C., seguido de “Fight for Your Right” de Beastie Boys.
A este mesmo supergrupo concebido especialmente para o Festival da Canção, competiu uma segunda função: recuperar a produção nacional de há 40 anos. Na voz de Uamusse, uma remistura eletrónica de “Fizeram os Dias Assim” do Trovante. Dedaldino, Salinas e Úria uniram-se para “Fado” da Resistência, antes de uma reinterpretação de “Efetivamente” dos GNR. O medley culminou com “Não Sejas Mau para Mim”, canção com que Dora representou Portugal na Eurovisão de 1986, na Noruega.