O arquivo de Elis Regina vai dar-nos surpresas por ocasião da passagem dos 80 anos sobre o nascimento deu uma das maiores vozes da música brasileira. E a primeira surpresa chegou na forma de uma versão, com novos arranjos, de “Para Lennon e McCartney”, canção de Milton Nascimento que o músico que os amigos tratam como Bituca desde pequeno editou no seu álbum de 1970. Esta nova versão surgiu recentemente nas plataformas de streaming num lançamento pela Trama e partiu de uma gravação de 1976, que foi restaurada com equipamento de inteligência artificial e à qual foram acrescentadas novas partes instrumentais gravadas por João Marcello Bôscoli (teclas e percussão), Daniel de Paula (bateria), Robinho Tavares (baixo), Conrado Goys (guitarra) e Marcelo Maita (piano e teclados analógicos). Nenhum dos instrumentos usados é de construção recente, procurando uma proximidade com os que existiriam por alturas da gravação original de Elis Regina, alguns deles tendo de facto sido usados nesse registo de arquivo.
João Bôscoli, filho da cantora e um dos fundadores da Trama, comentou que este “lançamento da Elis, sob o selo Trama” corresponde ao “primeiro de vários outros que virão” mais adiante, acrescentando que estão “imersos no processo de remasterização” de todo acervo da etiqueta e que “a ideia é disponibilizar tudo gradualmente”. Sobre a quantidade de material diz que “é imensa, tanto em áudio quanto em vídeo”, advertindo que “a execução desse trabalho requer muito cuidado e precisão” e observa ainda: “cada vez que reviramos o baú, surgem mais e mais pérola”.
Esta não correspondeu à primeira incursão desta nova fase da editora Trama pelo arquivo de Elis Regina, já que em 2023 uma outra canção, neste caso “Como Nossos Pais”, também de 1976, conheceu nova versão, desta vez surgindo em dueto agora criado em estúdio com a filha Maria Rita e que foi então usado num filme publicitário. A nova versão de “Para Lennon e McCartney” correspondeu ao single de avanço de “Elis Para Sempre”, álbum que recupera essa e outras mais gravações de 1976.
O assinalar dos 80 anos do nascimento de Elis Regina inclui tributos em Porto Alegre (onde nasceu) ou no Rio de Janeiro e envolve ainda um concerto dia 28 em São Paulo, com Ivan Lins, João Bosco e Fagner. Também em São Paulo o MIS – Museu da Imagem e do Som, que tem neste momento patente uma exposição sobre Ney Matogrosso, apresentará no segundo semestre de 2025 uma outra dedicada a Elis Regina. A biografia de Julio Maria, “Elis Regina — Nada Será Como Antes” (originalmente lançada em 2015 pela Companhia das Letras) vai ter já este mês uma nova edição revista e atualizada que inclui elementos do caderno de notas no qual a cantora registou factos e pensamentos nos seus últimos dias. Entre as novidades estão ainda os documentários “Elis por Ela Mesma”, de Hugo Prata, que explora as entrevistas da cantora e um outro, “Elis e Eu”, pelo filho João Marcelo Bôscoli, baseado no seu livro “Elis e Eu – 11 Anos, 6 Meses e 19 Dias com a Minha Mãe”. Um filme de ficção irá entretanto recriar a criação do mítico “Elis e Tom”, o álbum de 1974 gravado em Los Angeles ao lado de Tom Jobim. Neste filme caberá a Bianca Comparato recriar a figura de Elis Regina. Em 2006 a atriz tinha vá vestido a pele de Elis Regina (nos dias de juventude) num episódio de “Por Toda Minha Vida”, na TV Globo.
Os 80 anos de Elis Regina são também evocados no mais recente episódio do Gira Discos. Além de uma viagem por canções de Elis Regina, numa seleção que vai de memórias da estreia em “Viva a Brotolândia” de 1961 até à nova versão de “Para Lennon e McCartney”, o episódio junta ainda memórias de autores que ela mesa cantou como Edu Lobo, Gilberto Gil ou Milton Nascimento, incluindo ainda uma incursão pelo mítico “Abbey Road” dos Beatles ao lado deste último.