Quando regressar ao Norte, cuidarei de um desvio até ao centro do mundo. O centro do mundo é sempre o lugar onde pousa, em cada momento, em cada praça de uma qualquer cidade, na mais esconsa ruela de um qualquer lugarejo, o olhar de um fotojornalista como Pereira de Sousa.
Pereira de Sousa tem 83 anos, está reformado, mas mantém-se no batente dos dias, pela razão elementar de que não perdeu a memória. Cinquenta entre muitas das imagens inéditas que ele registou quando era editor fotográfico do JN estarão, a partir de hoje, expostas no Museu Bernardino Machado, em Famalicão, revelando-nos, até dia 4 de Maio, ângulos perdidos do verão quente português. A mostra dá a ver o Agosto de 75, reconduz-nos aos dias mais abrasivos na então vila de Famalicão, documentando, por exemplo, o assalto à sede local do PCP.
Pereira de Sousa foi, também, um dos guardadores de memória desses dias pelas ruas do Porto. O seu trabalho e o de outros como Bruno Neves lembra-nos que, nos dias eufóricos de há cinquenta anos, as multidões não enchiam apenas o largo do Carmo, também povoavam de bandeiras e de gritos a rua do Heroísmo, cujo nome nos reconduz a outros momentos gloriosos.
Cruzei-me intermitentemente com as imagens deste fotojornalista: de uma vez, em Arouca, celebrando a serra da Gralheira, de outra vez numa exposição na estação de São Bento.
Esta manhã, ele olha-nos a preto e branco numa página interior do JN. Quem o terá fotografado? O octogenário Pereira de Sousa fita-nos com um firme disparo do olhar, como se procurasse em nós, leitores, o ângulo mais luminoso. Este é o olhar dos que enchem a vida de histórias. Quem olha assim, como se os olhos inquirissem, terá muitas histórias para contar. Quem as recolherá?
Na notícia de meia página, ele conta à repórter Alexandra Lopes: “Nesse tempo, os rolos fotográficos eram enviados como saíam da máquina, por comboio ou pelo motorista do jornal, e um outro colega na Redacção, é que os revelava e imprimia as fotografias, para as chefias e os editores escolherem quais publicar”.
Pereira de Sousa, chegado aos 83, está a pedir uma conversa longa que faça correr o rolo da máquina, o rolo da memória. E nos leve ao momento em que alguém lhe disse, como num belo poema Drummond diz a Alécio de Andrade (o primeiro fotógrafo brasileiro da Magnum) “Vai, Alécio, ver./ Vê e reflecte o visto”. E Alécio vai? Alécio vai, poema adentro, mundo adentro. “Alécio vai e vê” (É de novo o poema de Drummond) “Alécio vai e vê / o natural das coisas e das gentes, / o dia, em sua novidade não sabida, a inaugurar-se todas as manhãs”.
Eis António, António Pereira de Sousa, tão incisivo o seu olhar na fotografia de onde nos fita, numa página de jornal, esta manhã, como se nos dissesse: “Eu fui, meus amigos, ver. Fui e reflecti o visto que convosco revejo agora, para que a memória prevaleça”