A aldeia em que os vivos são menos do que os fantasmas

Há uma aldeia no fim do mundo, no fim de um recôndito vale no Japão, que tem mais espantalhos do que pessoas. Mas não são bem espantalhos. São fantasmas resgatados da morte.

A aldeia em que os vivos são menos do que os fantasmas

Há uma aldeia no fim do mundo, no fim de um recôndito vale no Japão, que tem mais espantalhos do que pessoas. Mas não são bem espantalhos. São fantasmas resgatados da morte.

1.

Há uma aldeia no Japão que fica no fim do Vale de Lya.

As estradas são estreitas, as descidas assustadoras, o piso escorregadio.

A aldeia de Nagoro, a três horas e meio de Osaka, é o fim do mundo, mas foi nesse fim de estrada que aconteceu um bonito milagre.

2.

Há uns vinte anos, uma mulher cansada da cidade regressou à aldeia para procurar respostas a perguntas que não lhe saiam da cabeça.

O pai morrera, a mãe estava doente e sozinha, e Tsukimi voltou a Nagoro.

E foi ficando.

Era pintora em Osaka e nada a impedia de poder continuar ali o seu trabalho.

Mas fez mais… com saudades do pai construiu um espantalho à sua imagem e semelhança. E deu-lhe vida e liberdade colocando-o na horta onde gastava os dias.

3.

Os 40 ou 50 habitantes da aldeia alegraram-se com a figura ao vento – parecia viva.

Pediram então a Tsukimi que fizesse mais, que imortalizasse a aldeia com as mulheres e os homens que tinham partido.

O milagre foi esse.

A artista construiu centenas de espantalhos com centenas de caras reconhecidas por cada família.

Entramos em Nagoro e vemo-los à espera na paragem do autocarro, sentados em salas de escolas já fechadas, em jardins, a

caminhar nas ruas ou vestidos de polícias ou de médicos ou agricultores.

Os bonecos foram batizados de Kakashi e o sítio de Nagoro passou a ser conhecido pelos japoneses como a Aldeia dos Espantalhos.

A aldeia dos bonecos que espantam a solidão e a tristeza dos que vão ficando sozinhos.

Vemo-los ao vento e não parecem assustadores.

Ou assustados.

Parecem vivos.

Parecem guardar promessas.

E parecem estar à espera do próximo a partir.

Do próximo espantalho.

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