1.
João Pedro Pais continua a não ser tão valorizado quanto merecia.
Há nele qualquer coisa de diferente, uma delicadeza feita de toda a raiva que conseguiu domesticar.
Uma força tranquila que acredito ser o resultado do que construiu a partir do combate, da luta contra as correntes que o puxavam para fora de pé.
Uma vida que não lhe foi fácil.
Uma mãe que amava, mas em permanentes dificuldades, numa depressão a que se habituou na infância e adolescência.
2.
Há em João Pedro Pais um ruído que é grandioso.
Quando com ele estamos, quando o ouvimos numa roda de amigos, quando o conhecemos, é um espanto.
Difícil encontrar alguém tão capaz de nos entusiasmar por ser bom, por sorrir com os olhos, por nos convencer de imediato que dele poderíamos ser amigos, que nele poderíamos confiar.
Há depois no fundo do seu olhar uma reticência, uma tristeza melancólica, um sinal.
É isso que o faz diferente.
O paradoxo de ser de todos e só dele.
Da luz e das sombras.
Do otimismo e do destino.
Da coragem e do medo.
3.
Quando o vemos em palco é tudo isso.
Um dia volto a falar da música e de como ela lhe surgiu.
Mas hoje quero dar-lhe um abraço muito forte.
Porque a nossa história tem coisas comuns.
A mãe, a minha e a dele.
O combate, o meu e o dele.
E uma história que os dois descobrimos numa conversa num sítio de que não me lembro.
As nossas mães, a minha e a dele, adormeciam-nos a cantar a mesma canção.
“L’oiseau de L’Enfant”, de Marie Myriam.
Os dois passámos a vida a achar que éramos únicos.
Que o nosso momento mais íntimo com as nossas mães era só nosso.
E foi só nosso.
Meu e dele.
O momento em que fomos mais felizes com ela.
Os momentos em que fomos crianças que sorriam.
O momento em que a nossa mãe era gigante, parecia um anjo e nos cantava uma canção.
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