A pessoa que mais me amou faz hoje anos

A pessoa que mais me amou faz hoje anos. Tempo de a recordar, de recordar as nossas avós, a infância que nos escapou, a memória do que em nós nunca deixará de ser vida.

A pessoa que mais me amou faz hoje anos

A pessoa que mais me amou faz hoje anos. Tempo de a recordar, de recordar as nossas avós, a infância que nos escapou, a memória do que em nós nunca deixará de ser vida.

1.

Hoje faria anos a minha avó Joaquina.

Faria 113, mas morreu há 23.

Já contei muitas vezes, talvez para travar a possibilidade mais infinita de esquecimento.

Assim, fica escrito.

Como uma pintura rupestre numa caverna que me protege de papões.

2.

Foi a pessoa que mais me amou.

A que mais se sacrificou para que eu estivesse sempre bem.

Quanto jantei pela primeira vez com uma namorada que não chegou a sê-lo, ela empenhou um anel para que eu pudesse levá-la ao melhor sítio do mundo.

Nos dias de escola saía às seis e meia da manhã para me comprar um pãozinho quente – e no intervalo grande da Primária estava à minha espera para me passar um reforço.

Era sempre a ela que contava as minhas coisas, os meus pequenos segredos e ambições.

Foi por ela que chorei por antecipação, a pensar no dia em que não voltasse a acordar.

3.

Trabalhava doze horas por dia.

De sol a sol, mas dentro de casa.

Numa máquina que fazia soutiens, um atrás do outro.

Depois, no final de todos os meses, ia com ela no 9. Apanhávamos o autocarro perto de casa, numa esquina da Rua Sampaio Bruno, e saíamos nos Restauradores onde ficava o escritório do patrão que recebia os soutiens e lhe pagava em notas.

Muito poucas notas que guardava nas meias para que não se perdessem.

Mas deixava sempre vinte escudos para eu poder ter um miminho. Uma pirâmide de chocolate ou um galão e uma torrada.

4.

A avó Joaquina faz hoje anos num céu qualquer.

Talvez na face oculta da Lua, talvez em Marte ou num anel de Saturno.

Não me consigo lembrar muito bem da sua voz, mas a sua voz está sempre comigo.

Estou a ouvi-la agora.

Miguel

Miguel…

É isso que escuto quando a escuto.

O meu nome na sua boca, como uma oração.

A minha avó.

Mãe da minha mãe.

Pobre até ao último dia.

A avó Joaquina que deixou de herança uma fortuna ao neto que continua a chorar por ela.

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.