1.
Sofro genuinamente com a miséria humana.
Comovo-me quando encontro pessoas com fome e sede, pessoas maltratadas pela vida, pessoas com estórias de sofrimento e resistência, pessoas que parecem amaldiçoadas.
Tenho em casa um exemplo de alguém que se sacrifica pelos penitenciados – que oferece aos outros colocando em causa a sua própria saúde.
2.
É certo que tento fazer da escrita, fazer desta nossa correspondência diária, um exercício de preocupação efetiva com o outro, com os outros, com uma ideia de bondade, de decência, de coragem.
Mas o meu sofrimento é teórico.
Não dou o primeiro passo para estar na rua a auxiliar quem precisa, a dar sopa a quem tem fome, a acompanhar os enfermos, a ler para quem não pode ler, a visitar lares, a pôr umas galochas e a ajudar nas cheias.
Não consigo limpar a fralda dos que precisam que a fralda seja mudada.
Detesto maus-cheiros e que me lixem rotinas.
Sou uma boa pessoa, não sou assaltado por pensamentos que me envergonhem, gosto de gostar e de me surpreender, mas estou muitíssimo longe dos que verdadeiramente admiro.
3.
É por isso que te quero abraçar.
A ti que fazes trabalho voluntário em associações que acodem aos gritos que não ouvimos se estivermos demasiado obcecados com a nossa vidinha.
A ti que estás nas ruas com os sem-abrigo.
A ti que estás na cabeceira dos cuidados paliativos.
A ti que recolhes alimentos.
A ti que trabalhas com imigrantes e refugiados.
A ti que acolhes crianças ou abraças seres humanos com deficiência.
A ti que trabalhas com presos.
A ti que dás o que tens em hospícios.
A ti que limpas as praias e recolhes animais abandonados.
A ti que o fazes sem esperar nada em troca.
Anonimamente, discretamente, diligentemente.
4.
É muito bonito ser solidário.
E preocupado, como eu.
Mas bonito mesmo é pôr as mãos na massa, oferecer o melhor que se tem a quem nunca vimos…
… apenas por ser o que deve ser feito.
Tanto cinismo e tantos “carolas” que falam sem ponta de empatia, mas ainda assim tanta gente do lado certo.
É por isso que te quero abraçar.
Abraçar os voluntários portugueses.
Os melhores de entre nós.
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