A todos os voluntários portugueses

Milhares de pessoas continuam todos os dias a fazer voluntariado em Portugal. Fazem-no sem pedir nada em troca, sem esperar nada em troca. Anonimamente. Este postal é para eles e para elas.

A todos os voluntários portugueses

Milhares de pessoas continuam todos os dias a fazer voluntariado em Portugal. Fazem-no sem pedir nada em troca, sem esperar nada em troca. Anonimamente. Este postal é para eles e para elas.

1.

Sofro genuinamente com a miséria humana.

Comovo-me quando encontro pessoas com fome e sede, pessoas maltratadas pela vida, pessoas com estórias de sofrimento e resistência, pessoas que parecem amaldiçoadas.

Tenho em casa um exemplo de alguém que se sacrifica pelos penitenciados – que oferece aos outros colocando em causa a sua própria saúde.

2.

É certo que tento fazer da escrita, fazer desta nossa correspondência diária, um exercício de preocupação efetiva com o outro, com os outros, com uma ideia de bondade, de decência, de coragem.

Mas o meu sofrimento é teórico.

Não dou o primeiro passo para estar na rua a auxiliar quem precisa, a dar sopa a quem tem fome, a acompanhar os enfermos, a ler para quem não pode ler, a visitar lares, a pôr umas galochas e a ajudar nas cheias.

Não consigo limpar a fralda dos que precisam que a fralda seja mudada.

Detesto maus-cheiros e que me lixem rotinas.

Sou uma boa pessoa, não sou assaltado por pensamentos que me envergonhem, gosto de gostar e de me surpreender, mas estou muitíssimo longe dos que verdadeiramente admiro.

3.

É por isso que te quero abraçar.

A ti que fazes trabalho voluntário em associações que acodem aos gritos que não ouvimos se estivermos demasiado obcecados com a nossa vidinha.

A ti que estás nas ruas com os sem-abrigo.

A ti que estás na cabeceira dos cuidados paliativos.

A ti que recolhes alimentos.

A ti que trabalhas com imigrantes e refugiados.

A ti que acolhes crianças ou abraças seres humanos com deficiência.

A ti que trabalhas com presos.

A ti que dás o que tens em hospícios.

A ti que limpas as praias e recolhes animais abandonados.

A ti que o fazes sem esperar nada em troca.

Anonimamente, discretamente, diligentemente.

4.

É muito bonito ser solidário.

E preocupado, como eu.

Mas bonito mesmo é pôr as mãos na massa, oferecer o melhor que se tem a quem nunca vimos…

… apenas por ser o que deve ser feito.

Tanto cinismo e tantos “carolas” que falam sem ponta de empatia, mas ainda assim tanta gente do lado certo.

É por isso que te quero abraçar.

Abraçar os voluntários portugueses.

Os melhores de entre nós.

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