Por momentos, estive tentado a aviar-me com as postas de pescada eleitorais de um governo em peso junto à banca do peixe. Mas logo me libertei do Bolhão mediático porque o título de uma notícia do Correio Braziliense me fez soar dentro da cabeça os versos de uma poderosa canção do Chico.
A notícia do Correio Braziliense contava a morte de Cleonilson, catador de recicláveis, apanhado por uma descarga eléctrica na via pública. Foi a sua maneira de morrer “na contramão, atrapalhando o tráfego”.
Na verdade, Cleonilson morreu em sentido inverso ao do operário da canção que “flutuou no ar como se fosse um pássaro”. As asas dele iam nos calcanhares, quando pisou um fio desencapado no chão, junto a um poste eléctrico. Foi levado em coma para o hospital da Asa Norte. Há nomes que nos elevam, mesmo em desgraça.
Este nome Cleonilson faz pensar em pontas de lança, mas o mais conhecido Cleonilson que encontrei numa pesquisa breve foi um certo Cleonilson Protásio de Souza (Souza com zê), pós-doutorado em Engenharia Eléctrica (oh, ironia!)
Já o Cleonilson da notícia, sendo catador de recicláveis, raras vezes terá tido direito a tratamento respeitoso de instituições. Mas a Companhia Eléctrica Brasileira, neste contexto, lamentou profundamente “o falecimento do senhor Cleonilson Borges Pimentel”.
O Correio Braziliense faz um apanhado de casos semelhantes mais recentes, casos de gente que pisa fios desencapados em dias de chuva. Raios sacudindo em plenas águas de Março. Um deles é o de um homem não identificado que fazia uma ligação clandestina, na zona do Sol Nascente. Outro é o de um menino que morreu electrocutado por um fio de alta tensão, durante uma tempestade. Outro é de um
técnico de som que montava uma instalação no estádio Mané Garrincha.
A notícia da morte de Cleonilson tem uma frase tocada por uma subtil força electromotriz: explica que o catador de recicláveis “passava pelo local após uma chuva, quando pisou no chão, próximo a um poste e caiu desacordado”. Um tipo lê isto e é sacudido por uma aprazível voltagem. Pena que Cleonilson tenha acabado no chão, “feito um pacote tímido”. Um quase morto que dá choque.
Tudo nesta notícia tem um não sei quê. Apetece dizer ao repórter no batente: “Deus lhe pague”.