O homem que caminha pelos corredores onde se morre de cancro

A história maravilhosa do capelão que anda pelos corredores do IPO de Lisboa a oferecer esperança a quem a perdeu. Um padre com um nome esquisito e preto. Mesmo preto.

O homem que caminha pelos corredores onde se morre de cancro

A história maravilhosa do capelão que anda pelos corredores do IPO de Lisboa a oferecer esperança a quem a perdeu. Um padre com um nome esquisito e preto. Mesmo preto.

1.

No nosso país, no nosso mundo, o medo cresce como erva daninha – medo do outro, medo de quem é diferente, medo que alguém nos ocupe o lugar.

O medo traz ressentimento.

Traz ódio.

Violência.

E racismo.

2.

Não pretendo fazer juízos de valor, apenas falar-te de um homem que caminha todos os dias pelos corredores de um hospital habitado pela proximidade da morte.

Quem já esteve internado no IPO de Lisboa, conhece-lhe o sorriso e os olhos de anjo.

Sabe que aquele homem é padre.

Sabe que fez voto de pobreza.

Que perdeu a mãe com dois anos.

Que todos os dias transforma a vida de doentes com cancro, velhos e novos, crianças de colo e os seus pais, pobres e ricos…

…que todos os dias transforma o medo da morte em esperança de vida.

Uma esperança que faz por ser ainda mais forte quando já não há esperança possível.

3.

O homem que trago até ti…

Este padre que é um anjo para tantos e tantas, é preto.

Nasceu numa aldeia pobre de Maputo, é preto mesmo.

Retinto.

Se és racista e se um dia a doença te apanhar, se achas que és superior por ser branco ou “português de primeira”, perceberás

que o abraço deste homem te pode salvar, que a energia que tem lhe vem de um lugar inexplicável.

4.

E sabes…

…é preto e tem um nome esquisito.

Langane.

Custódio Langane.

Em Maputo trabalhou com meninos de lixeira.

Em Portugal é capelão do IPO.

Caminha pelos corredores e escuta.

Ilumina a escuridão.

Oferece palavras que são milagres.

Como as que disse àquela mãe nos cuidados paliativos. Uma jovem mulher inconsolável que não se conformava com a ideia de deixar duas filhas gémeas de oito anos.

O Padre Custódio, preto e com um estranho apelido, falou-lhe do seu exemplo, de uma mãe que lhe morrera subitamente sem nada lhe deixar de memória.

Que oportunidade aquela mãe tinha.

A de aproveitar as semanas que lhe restavam para deixar uma marca de futuro às suas princesas. De lhes oferecer paz, amor e memória.

A mãe voltou a casa.

E quando regressou para morrer, abraçou o Padre Custódio e soprou-lhe ao ouvido: “Obrigado, estou pronta. E elas também”.

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