1.
Não conheci a avó da Ana.
Quando beijei pela primeira vez a boca da neta, há uns 14 anos, Jacqueline estava viva e continuava a fazer os seus passeios pelo bairro.
Tive pena por nunca ma terem apresentado: primeiro, por nunca ter conhecido nenhuma Jacqueline e, segundo, por aquela mulher ter sido a pessoa mais importante na vida da mãe dos meus filhos mais novos.
2.
Jacqueline gostava de arranjar o cabelo e era popular entre as vizinhas.
Era uma mulher forte, detestava que alguém ousasse sequer pensar que a pudesse manobrar – a sua filha, e minha sogra Anaísa, venerava-a.
Adorava-a tanto como a Ana, sua única filha.
E única neta de Jacqueline.
3.
Trazia a fotografia de Carlos Paião na carteira.
Para Jacqueline, era família.
E quando morreu foi como se tivesse partido alguém lá de casa.
4.
A esta altura do postal já deves ter perguntado se enlouqueci.
O que raio quero eu dizer com isto tudo?
Quero contar-te uma coisa muito bonita.
5.
Ana, desde que se lembra de lembrar, só teve um desejo: ser médica para poder salvar a avó quando ela adoecesse.
Foi médica, é médica.
Extraordinária no seu caminho de amparo de perdidos e perdidas, pessoas desamparadas, gente que está a morrer, é a sua praia, talvez seja o seu destino.
E a sua filha mais velha, minha enteada mais velha, já é estudante de Medicina.
É como se fosse minha filha, estamos juntos desde que é criança e é maravilhosa.
Leonor, assim se chama.
É uma aluna incrível e será uma excelente médica.
Já está a terminar o segundo ano, mas sabes uma coisa?
No dia em que fez o exame nacional decisivo para a sua entrada na Faculdade de Medicina, lembrámo-nos de Jacqueline pois, nesse preciso dia, passavam dez anos pela sua morte.
A Ana chorou muito.
Abraçou a Leonor e, com a maior sinceridade de que foi capaz, disse-lhe:
“Minha filha, não vou perguntar-te se correu bem pois sei agora que está tudo certo, que tudo valeu a pena”.
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