1.
Frequentava casas de fado no Estoril e nos bairros antigos de Lisboa.
Era extraordinariamente bonito, muita gente se apaixonava quando passava e, ainda mais, quando abria a boca para cantar.
Vinha da nobreza e dos brasões.
Não gostava de tocar no assunto, tentava ser o mais discreto, mas quando os amigos endinheirados e bem-nascidos se juntavam nas madrugadas com a ralé, lá se contava que o rapaz era tetraneto do Rei Dom João VI, o Clemente, o que levou as cortes para o Brasil para escapar às invasões de Napoleão.
2.
Bonito.
Rico.
Brasonado.
Com amores e uma voz que parava o trânsito da noite.
Mas nenhum dos fatores foi suficiente para travar a vontade de mudar de vida, de abandonar tudo, de se fechar num convento.
Cantou o “Fado da Despedida” e contou aos pais da sua decisão um mês antes de se fechar num Convento Beneditino.
Tinha 27 anos.
3.
Chegaram a ser escritas reportagens a jurar que abandonara tudo por se ter apaixonado por quem não retribuía a paixão.
Verdade ou não cumpriu mesmo o que os amigos nunca imaginavam que pudesse cumprir – afinal, como é que um notívago amante da boa vida poderia renunciar assim ao prazer?
Frei Hermano da Câmara é o homem de que te conto.
Tem 91 anos, deixou de cantar há dez e vive numa residência de uma pequena ordem que fundou em 1987, depois de sair de Singeverga…
…os Arautos da Misericórdia Divina, assim foi batizado um movimento a que começou por chamar Apóstolos de Santa Maria.
São monges que rezam, contemplam e visitam paróquias e lares levando Deus através da música.
4.
Frei Hermano decidiu fechar-se num convento há quase 70 anos.
E, apesar de ter deixado os fados de faca e alguidar, das touradas e amores proibidos…
…continuou a cantar.
Sobre Jesus, sobre Nossa Senhora, sobre Deus e a bondade.
Talvez não saibas do que estou a falar quando te digo deste frade.
Do sucesso que teve, dos muitos milhares de discos que vendeu, dos espetáculos esgotados, do quase histerismo que provocava, da importância que teve para a Igreja portuguesa logo após o 25 de Abril.
5.
Com Frei Hermano a Igreja provava que cantava e dançava, que não era conservadora como os revolucionários diziam que era.
Certamente que ainda canta, mas não para nós.
Entrou num silêncio antes do silêncio.
Não sei se guarda fotografias antigas, o som dos aplausos e a memória dos poemas que cantou, sei que continua bonito e sem arrependimentos.
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