Já estive mais longe de dar vivas ao Rei

Duarte e Isabel celebraram 30 anos de casamento. E nessas três décadas o mundo virou-se ao contrário. Talvez a Monarquia, mesmo para os republicanos, tenha deixado de ser um mal absoluto.

Já estive mais longe de dar vivas ao Rei

Duarte e Isabel celebraram 30 anos de casamento. E nessas três décadas o mundo virou-se ao contrário. Talvez a Monarquia, mesmo para os republicanos, tenha deixado de ser um mal absoluto.


1.
Há muitos anos fiz uma viagem de carro com D. Duarte.

Era um jovem jornalista e vivi um dia inesquecível.

Encontrámo-nos no Chiado e fomos num automóvel guiado pelo seu motorista ao Paço Ducal de Vila Viçosa, sede histórica da Casa de Bragança.

Pudemos conversar sobre o país e a Monarquia, os costumes e a sua empenhada intervenção pública por Timor.

2.

Recordo a viagem.

E também a sua simpatia, o à vontade com que andava nos longos corredores do Palácio e algumas respostas desabridas, quase loucas, manifestamente fora da realidade.

Passaram mais de três décadas.

E o mundo ficou de cabeça para baixo.

Morreram os protagonistas da altura e partidos políticos que achávamos imortais, renasceram movimentos racistas e antidemocráticos, surgiram homens providenciais que parecem robôs do mal, nos Estados Unidos a liberdade está por um fio, a Inglaterra sacrificou a sua relação com a Europa, as redes sociais trouxeram liberdade e caos, o jornalismo está ferido de morte e a amoralidade cresce como imparável erva daninha.

3.

Acabo de ler a notícia de que Duarte celebrou 30 anos de casamento com Isabel.

E voltei à viagem de carro para Vila Viçosa.

Ao que pensei na altura, à certeza do anacronismo de uma Monarquia cujo herdeiro me pareceu uma criança grande e deliciosamente ingénua.

4.

Trinta anos depois já não penso assim.

Sou republicano e continuo a defender que não é possível existirem famílias beatificadas pela lei dos homens, mas confesso que, nos tempos que correm, tempos em que a identidade do país está a ser afogada num charco de mediocridade…

… confesso que olho para aquele homem anacrónico e vem-me à cabeça que a Monarquia talvez não seja um mal absoluto.

Afinal, ser conservador é hoje quase um ato revolucionário.

Já estive mais longe de dar vivas ao rei.
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