1.
Dedico este Postal a um monumento.
Um ícone da cena underground do país.
O pai do punk português.
João Ribas era tudo isso.
E mais uns quantos adjetivos que poderia usar para o definir.
2.
Morreu com uma pneumonia, em 2014.
Continua a surpreender-me o tempo, a rapidez com que corre em nós – o Ribas teria feito 60 anos se fosse vivo, mas talvez o seu destino fosse não envelhecer…
…ele era o punk e, como tal, o envelhecimento é uma incongruência.
Encontrava-o em viagens de metro.
Apanhávamo-lo nas avenidas novas e íamos até ao Bairro Alto. Ele com uma cerveja na mão e eu miseravelmente “betinho” a fazer por dizer coisas engraçadas, a fazer por o desmanchar para ter um controle mínimo da situação.
3.
O Ribas era de famílias burguesas.
Vivia na Avenida de Roma, mas falava-me da mãe que lhe aparava os golpes – é na casa de Dona Constança que o punk puro e duro nasceu, num quarto dos fundos usado pelo Ribas e o irmão mais os amigos que tocavam e ouviam Ramones, Sex Pistols e Dead Kennedy antes de fugirem para a madrugada.
Tenho saudades do João Ribas.
Do seu idealismo.
Da sua violência terna.
Da sua coerência indestrutível.
Da sua pinta de rocker.
Entrava em palco com os Censurados ou a Tara Perdida ou até antes com os Kus de Judas e era o delírio – alto, visceral, uma aparição.
Maravilhosa a maneira como olhava, o carinho que tinha com os miúdos que começavam a tocar e a habituar-se à noite.
4.
Ele que se tinha perdido na heroína, salvou muitos de se afogarem numa piscina sem pé.
Mergulhou fundo.
Na droga.
No punk.
Na transgressão que, no seu caso, durante vários anos, não se imaginava que pudesse ser travada.
Redimida.
Só que a luz de Ribas era tão forte que ganhava sempre à escuridão.
Tão bonito podermo-nos sentar agora no seu Bairro de Alvalade, podermo-nos sentar no pequeno jardim com o seu nome.
Não há sítio mais perfeito do que aquele lugar com árvores e bancos onde podemos descansar antes da madrugada.
O punk não morreu.
E nunca morrerá.
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