1.
Num mundo a sério em que a integridade tivesse importância, em que a ética predominasse e existisse uma moral à qual os cidadãos se subordinassem, José Sócrates não poderia ser preso.
Não faria qualquer sentido.
Seria como beneficiar o infrator, seria oferecer-lhe a hipótese de uma vitimização que levaria a que uma parte do país sentisse, em algum momento, pena ou qualquer outro sentimento de benevolente para com o ex-primeiro-ministro.
2.
Não, no mundo que eu desejo, Sócrates nunca seria preso.
Jamais o beneficiaria com a possibilidade de deixar de existir no lugar onde os portugueses circulam.
Para Sócrates seria muito mais insuportável continuar a sentir os olhares reprovadores das pessoas, a ouvir o que dizem sempre que decide beber um café.
Seria muito mais terrível, sem qualquer comparação, permanecer em liberdade sujeitando-se a uma humilhação diária, a um ajuste de contas mediático, a um inclemente juízo de valor coletivo.
3.
Vemo-lo à porta do tribunal e o homem faz pena.
É uma sombra.
Um motivo de gozo.
Uma anedota.
E brevemente uma série de televisão.
Há sempre alguém que acredita.
Deve ter os seus fiéis, mas a esmagadora maioria olha para ele e vê naquela arrogância desajustada, naquela figura de um homem contaminado por uma realidade alternativa, alguém que não parece estar bem.
4.
Sócrates é fascinante.
Foi fascinante na conquista do poder.
É fascinante na sua queda, como se fosse um personagem de um filme trágico.
Oiço as pessoas queixarem-se.
Este homem devia estar preso.
Devia sair da nossa frente.
Deixar de interpor recurso atrás de recurso.
Mas não têm razão.
Sócrates está preso.
Para sempre.
Faça o que fizer, aconteça o que acontecer, foi condenado a uma prisão perpétua sem qualquer hipótese de recurso.
Todos os dias, o homem que mais poder teve depois do 25 de Abril, é o mesmo que nunca mais poderá sair à rua sem que alguém diga:
— “Olha, olha, olha. Ali vai ele”.
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