Nunca tratei por tu a mulher que me mudou a vida

O postal de hoje é sobre uma mulher que me mudou a vida. Deixou de ser diretora da RTP 2 onde liderou a antena durante dez anos. Chama-se Teresa Paixão e é extraordinária.

Nunca tratei por tu a mulher que me mudou a vida

O postal de hoje é sobre uma mulher que me mudou a vida. Deixou de ser diretora da RTP 2 onde liderou a antena durante dez anos. Chama-se Teresa Paixão e é extraordinária.

1.

Quando a conheci, há bem mais de trinta anos, eu era outro.

Com coisas que perdi.

Sem algumas que haveria de ganhar.

Mas não era a mesma pessoa.

Tinha 18 ou 19 anos.

Mais borbulhas do que sonhos.

Mais certezas do que dúvidas.

Mais energia do que medo.

Mais futuro do que passado.

2.

E Teresa Paixão era também outra.

Com menos de trinta anos, mas já uma referência na televisão para os mais novos.

Trouxera a Rua Sésamo para Portugal e revolucionou de alto a baixo os conteúdos infantis e juvenis.

Recordo bem a primeira conversa.

E o início da nossa amizade, o meu deslumbre quando a ouvia, muito tia, mas inteligente, fora da caixa, culta e criativa.

A Teresa desarmava com o seu pensamento sempre provocador. Obrigava a pensar, virava os assuntos de pernas para o ar, colocava os problemas em dimensões que não eram as óbvias.

3.

Aprendi muito com ela.

E só agora, meses largos após deixar de ser diretora da RTP 2, só agora…

…lhe venho agradecer, dizer-lhe obrigado, confessar-lhe que tenho um verdadeiro amor por ela.

Teresa Paixão é uma solitária com gente à volta.

Amigos, livros, família, ideias.

E viagens, muitas viagens.

Acompanhada e sozinha, para o deserto e para os oásis, para baixo e para cima, com lágrimas ou sem elas, com cansaço ou pronta a correr uma maratona se soubesse fazer exercício – dá-me ideia de que nunca a vi de ténis.

4.

Teresa merecia ser mais reconhecida.

Seria justo organizar-se uma festa de homenagem, sugestão que detestaria por ser tão efusivamente óbvia.

Mas que merecia, merecia.

Poucas pessoas marcaram tanto o serviço público de televisão quanto ela.

Arriscou sempre a qualidade num tempo que privilegia o fast food. Assumiu que a sua luta não eram as audiências, mas a

oferta de programas – de conteúdos, como agora se diz – que nos obrigassem a ser mais ambiciosos, a ter olhos de banda larga, a ver documentários feitos por portugueses, por gente nova.

Se ela não tivesse surgido na minha vida, talvez não estivesse aqui agora – é sempre preciso que alguém nos olhe quando temos borbulhas e somos atropelados por sonhos e imaturidade para os concretizar.

5.

Querida Teresa.

Nunca nos tratámos por tu.

E não chegámos a fazer o programa final.

É porque não tinha que ser.

Vamos almoçar amanhã e a seguir damos comida aos peixes no Aquário Vasco da Gama.

Combinado?

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.