1.
Saio à rua e é intolerável a má educação.
Não a má educação de quando eu era adolescente, a ordinarice ingénua, os vidros partidos quando jogávamos à bola, o cuspir para o chão…
…eram os dias em que os mais velhos proclamavam que no seu tempo a boca se lavava com sabão azul e branco, os professores primários ferravam a palma das mãos dos malcomportados com reguadas de madeira maciça e quase toda a gente se portava como um soldadinho mais ou menos de chumbo.
2.
Sempre detestei as frases de que “no meu tempo é que era”.
Que isto só iria lá com a reencarnação de Salazar, o omnipotente, o omnipresente defensor da moral e dos bons costumes.
O que precisávamos mesmo era do regresso da PIDE para que comunas, maricas e ordinários pudessem alancar e sofrer no lombo para verem de uma vez por todas o que custa a vida.
3.
Repito: saio à rua e nunca vi tanta má educação.
Aliás, nem é preciso sair – basta ligar a televisão e ouvir as discussões no parlamento, os programas com portugueses reais, os inquéritos de rua à saída da bola ou em qualquer manifestação popular.
Gente que trata mal, que fala mal, que insulta, que é racista, misógina ou violenta.
Gente que há uns anos, não muitos, estava calada por ter receio de que as suas opiniões os prejudicassem, mas que agora estão nas suas sete quintas, dão triplos saltos mortais sem medo de partirem a espinha por saberem que têm uma rede por baixo que lhes amacia a queda.
Sabem que nada lhes acontece.
4.
Vemos em todo o lado que são os mais ordinários e mal-educados que se queixam da ordinarice e da má educação.
Vemos na casa da democracia que são os deputados que parecem taberneiros nos velhos portos de Amesterdão ou nos tascos dos morros mais abjetos, a queixarem-se de que o país precisa de ser bem-educado, que precisa de ser limpo e habitado apenas pelos de bem, pelos que cumprem as regras e são bem-educados.
Vemos nas escolas, nos liceus, e os piores alunos, os que rebentam com tudo, os que insultam os colegas que não são como eles, os que gozam os bons alunos por terem boas notas, os agressores, os bullies…
…são todos esses miúdos, os mais malcomportados de cada turma, que votam ou prometem um dia votar no partido que defende a ordem e a boa-educação.
Nos adultos a mesma coisa.
A pior escumalha é a que defende que devemos ser bem-educados e cumprir as regras.
5.
Que mundo este.
Um mundo que me está a transformar.
A mudar algumas das coisas que eu achava serem em mim absolutamente imutáveis.
Há que fazer qualquer coisa, não sei bem o quê.
Falar sobre o assunto, não desistir das pessoas.
Defender a boa-educação.
Pessoas melhor educadas.
Melhores cidadãos.
Expulsar a má moeda.
Gente que mata e ataca quem mata.
Gente que rouba e ataca quem rouba.
Gente que é ordinária e ataca quem é ordinário.
Gente que insulta no trânsito, mas que depois grita que a culpa é dos que gritam no trânsito.
Gente que bate nas mulheres, mas que deseja a prisão dos que atacam quem bate nas mulheres.
Vemos em todo o lado.
E não há partidos, classe social ou crentes religiosos que escapem à ignomínia.
Há malta má como as cobras em todo o lado.
Mas quando vemos alguém com um determinado perfil, quando o vemos a gritar contra os outros, contra o mundo, contra o raio que o parta, sabemos logo em quem vota a maioria quando vota.
Vota nos que defendem precisamente aquilo que não são.
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