1.
O único lugar no mundo onde o Ambrósio e a senhora continuam vivos é em Portugal.
Nos outros sítios, nas mais variadas longitudes, a marca modernizou personagens, mudou os cenários e seguiu as tendências, mas aqui é a doer…
…era como se um dia alguém ousasse pôr em causa o coelhinho de Natal ou o Bolo-Rei ou as passas que nos atropelam de desejos por concretizar.
2.
É curioso e faz pensar.
Portugal é o país onde a Ferrero Rocher vende mais chocolates per capita – e na empresa há quem jure que o sucesso se deve ao Ambrósio e à aristocrata num banco de trás de um Rolls-Royce.
Edite Estrela e outros especialistas da língua portuguesa fizeram uma chinfrineira por causa de um erro semântico da senhora.
“Ambrósio, apetecia-me tomar algo”.
Era necessário combater o mau português e “tomar” teria de ser substituída por uma outra palavra, por um outro verbo.
Quando a marca substituiu “tomar” por “comer” mais de 600 portugueses escreveram horrorizados – como era possível mexer no que estava bem?
Resultado: na semana seguinte, o país respirou fundo e tudo voltou à normalidade.
3.
O anúncio é sublime.
Temos o Ambrósio que é o mais perfeito nome de criado.
Apesar de existirem Ambrósios poderosos, papas e tudo, não há possibilidade de alguém imaginar um Ambrósio que não conduza
um carro de luxo com uma senhora gulosa e aristocrata no banco de trás.
E a sua frase é perfeita, queres dizê-la comigo?
“Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora”.
4.
Os bombons são excelentes, mas há outros tão bons ou melhores.
Só que sem ela e sem ele.
Uma rica e um pobre de luxo.
Um que serve e outra que é servida.
Um carro de sonho, uma relação de proximidade distante, uma ideia de boa-educação e de classe que é projetada em quem tiver os bombons em casa.
O mundo no seu equilíbrio perfeito.
Com um Ambrósio que gostaríamos de ter.
Com uma senhora que ambicionamos ser.
E uma frase que não desejamos mudar mesmo sabendo que está errada.
Fazemos bem, eu próprio teria escrito uma carta indignada.
Também sabemos que o Pai-Natal não existe e não é por isso que o proibimos de aparecer no Inverno.
Ou estou errado?
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