Se és professor hoje é um dia triste, mas feliz

A história de vida daquele que muitos consideram o professor dos professores da Escola Pública. João Jaime Pires reformou-se, mas hoje inaugura o novo edifício do Liceu Camões que foi o resultado do seu esforço de tantos anos. Um postal que é dedicado a todos os professores de norte a sul.

Se és professor hoje é um dia triste, mas feliz

A história de vida daquele que muitos consideram o professor dos professores da Escola Pública. João Jaime Pires reformou-se, mas hoje inaugura o novo edifício do Liceu Camões que foi o resultado do seu esforço de tantos anos. Um postal que é dedicado a todos os professores de norte a sul.

1.

Olha, o professor João Jaime Pires reformou-se.

Talvez não saibas, não o conheças, mas ele é um símbolo, uma referência para quem acredita que ser professor é a melhor profissão do mundo.

João Jaime reformou-se, mas continua a ser o miúdo que entrou pela primeira vez no lisboeta Liceu Camões para fazer o exame da 4.ª Classe.

E o jovem professor de matemática que, depois de várias experiências noutras escolas, depois de ter fundado um grupo de teatro em Alhandra, de ter sido autarca e jogador da bola, voltou a entrar no Camões em 1993 para dar aulas.

Nunca mais de lá saiu.

E nestes trinta anos em que os professores tanta “porrada” levaram, em todo este tempo de pessimismo e de perda de estatuto, o professor cool provou que nunca se deve deixar de caminhar e de lutar por convicções.

2.

Entrou em 1993 para um dos liceus mais emblemáticos da nossa história.

O liceu de Álvaro Cunhal e de Marcello Caetano.

O liceu de António e João Lobo Antunes.

Também o de Jorge de Sena e de tantos outros.

Entrou há trinta anos com o liceu a cair aos bocados por dentro e por fora, a cair também no esquecimento, na desistência coletiva.

Mas João Jaime fez das suas aulas de matemática um espaço de conhecimento e de liberdade. E amado pelos alunos e colegas foi desafiado a pensar o futuro da escola, desafiado a dirigi-la.

3.

Desculpa a proximidade, mas…

… olha…

… João Jaime reformou-se e este postal não é apenas para ele, mas para todos os professores que continuam todos os dias a desafiar marés imprevisíveis.

Como ele fez em toda a sua vida.

Antes e depois do Liceu Camões.

Como ele fez quando acreditou que a escola podia ser um espaço de liberdade.

Com espaço para que todos pudessem crescer, alunos e também professores.

Com uma convicção inabalável de que os miúdos mais pobres podiam coabitar com os privilegiados, única forma de respeitar verdadeiramente a escola pública.

Com a vontade de transformar a escola num ofício de pensamento e num manual de instruções para a vida. Com matéria e cultura, com professores dialogantes e desporto, música, teatro, cinema, dança e debates constantes.

4.

O professor João Jaime reformou-se, mas amanhã estará na primeira fila quando o projeto da sua vida for inaugurado. Um edifício novo resgatado ao poder político pelo seu esforço diário durante anos e anos e anos.

Mudava o ministro, mas ele não desistia.

De projeto em projeto, de promessa em promessa, de queda em queda, até ao dia em que as obras começaram.

Cinco anos que venceram reticências e até a pandemia.

Mas o velho Liceu Camões está agora novo e amanhã toda a gente lá estará.

Quando vires as imagens procura-o na primeira fila, procura que o encontras, provavelmente desgrenhado e com olhos de miúdo, o professor cool, um dos mais extraordinários professores da nossa história democrática.

Que os tantos professores talentosos de norte a sul não deixem cair o seu exemplo. Que os tantos que acreditam não deixem de acreditar.

Precisamos disso.

O país precisa disso.

Texto e programa de Luís Osório

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