1.
O país sabe que são irmãos, mas não os vemos como irmãos, o que é estranho.
Estranho por serem amigos, o contrário de Caim e Abel…
…também por serem músicos, alentejanos do Redondo, políticos no sentido largo do termo, incómodos e tímidos.
Se são tão parecidos, qual a razão para não os vermos como irmãos sabendo que o são?
2.
Por fazerem músicas diferentes?
Por procurarem caminhos que não são os mesmos?
Procurei encontrar um sentido para a pergunta e para as respostas.
Vitorino e Janita Salomé, dois de cinco irmãos de uma família unida.
Filhos de um relojoeiro que tocava vários instrumentos – cresceram com o pai a arranhar o violino, a tocar bem bandolim e a cantar maravilhosamente o fado de Coimbra, vá-se lá saber a razão.
A mãe, a mesma coisa. Adorava o som da cidade dos estudantes, a guitarra de Artur Paredes e as serenatas.
Também o Cante Alentejano, como não?
Os filhos mais velhos estiveram nos míticos Cantadores de Redondo, mas eles, Vitorino e Janita, fizeram-se à vida…
…não por serem menos amados do que os irmãos, mas porque o pai não tinha lugar para todos na loja dos relógios.
Abalaram então para Lisboa.
Vitorino a fazer música enquanto estudava Belas Artes.
E Janita, antes de embarcar para a guerra em Moçambique, a trabalhar como técnico de justiça num tribunal na parte velha de cidade.
3.
Vitorino tem mais cinco anos do que Janita.
Durante a adolescência fazia a sua diferença.
Depois, não.
Hoje, o mais velho tem 84 e o mais novo 79.
Continuam tímidos, embora quem não conheça Vitorino possa achar bizarro que ele o seja.
4.
Ah, e os dois trabalharam com Zeca Afonso em épocas diferentes.
Primeiro o mais velho, depois o mais novo.
Um dia, no princípio da década de 1980, Zeca perguntou ao mais miúdo se queria tocar com ele.
Janita deixou tudo para seguir o mestre – despediu-se do trabalho e nunca mais deixou de viver da música.
É ou não uma história bíblica?
5.
O país sabe que são irmãos, mas tentaram sempre, talvez inconscientemente, descolar-se um do outro.
Ouvimos as canções dos dois e são diferentes embora exista qualquer coisa que nos faz perceber que nasceram da mesma barriga, que têm a mesma genética.
Vitorino mais popular.
Janita menos.
Vitorino mais provocador à superfície.
Janita menos.
Mas os dois, filhos de um relojoeiro e de uma mulher forte do Redondo que se arrepiava com um bom fado de Coimbra, os dois…
…Vitorino e Janita…
…conseguiram a proeza de criar uma marca que só a eles pertence.
Ouve-os.
Experimenta.
“Queda do Império”, de Vitorino.
E “Não é Fácil o Amor”, de Janita.
Talvez pouco exista de mais bonito na música portuguesa.
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