É já a partir desta terça-feira (31), depois das 19h: uma escritora, um filósofo e um ensaísta sentam-se para pensar o mundo em que vivem, a partir das coisas que os movem. A RTP Antena 1 apresenta “O Movimento das Coisas”, o novo programa das terças-feiras, ao fim de tarde: uma conversa semanal entre Joana Bértholo, David Erlich e Pedro Levi Bismarck, moderada por Mariana Oliveira.
Não é uma espécie de magazine, uma fotocópia da primeira página. O que fica para lá da espuma dos dias? Nesta conversa semanal, perspetiva-se aquilo que passou como nota de rodapé – ou, aquilo que, andando pelas bocas do mundo, tem ainda mais assunto para descortinar. “Vamos em busca das engrenagens”, reforça Mariana Oliveira, “de entender os sinais e sintomas de um mundo em movimento. Quase na lógica do sismógrafo – que vai detetando as ínfimas variações do movimento.”
A RTP Antena 1 sondou as perspetivas de cada uma das vozes d’”O Movimento das Coisas”. Ouça o primeiro episódio e leia as respostas abaixo.
Joana Bértholo, escritora
Se falamos de movimento, a maior dificuldade é a velocidade a que os acontecimentos se precipitam, o excesso de estímulos, e as opiniões rápidas que atiçam debates que se consomem rapidamente, deixando apenas cinza. Não é fácil distinguir no caleidoscópio diário dos temas quais se inscreverão no tecido maior das nossas histórias pessoais e colectivas.
Espero deste encontro semanal a possibilidade de abrandar para, em conjunto, pensar e sentir o que se move, e encontrar o que permanece. Não só acompanhar o movimento das coisas, mas entender a sua cadência e respiração.
Espero contribuir com a minha inclinação para observar a linguagem, os discursos, como falamos do mundo; e com a minha história e arquivo pessoais: certos livros, filmes, viagens, as artes visuais, estudos culturais, a luta climática e o desporto.
Pedro Levi Bismarck, ensaísta e investigador
Steven Bannon sucedeu a Jürgen Habermas. O estratega político de Trump é hoje o (i)legítimo sucessor do filósofo da razão comunicativa. E o sonho luminoso da esfera pública e do consenso deu lugar ao grande e subterrâneo mundo da “pós-verdade”, das fake news, dos memes e dos discursos de ódio.
O modelo esclarecido da ágora dissolveu-se no mundo digital mitológico dos grupos do Whatsapp e das contas do TikTok. Numa época em que vivemos saturados e até mesmo cansados de informação, em que a própria saturação de informação foi transformada numa estratégia política, “O Movimento das Coisas” (que é ainda uma homenagem ao passo demorado e atento do filme da Manuela Serra) é uma tentativa de dar algumas condições críticas de legibilidade a um mundo que parece ter-se tornado tão absolutamente inapreensível.
David Erlich, professor de filosofia
O espírito da nossa época é apressado. Hipnotizados por pululantes ecrãs, puxados por permanentes notificações, polarizados por vídeos curtos que incentivam à zanga, cada vez mais as nossas vidas clamam por tempo. Um tempo que permita foco, profundidade e compreensão mútua.
Assim, a velocidade analítica ideal, hoje, só pode ser a da lentidão. Na verdade, quiçá tenha sido sempre esse o ritmo analítico, mas seja agora – na voraz atualidade e por contraste com ela – especialmente importante sublinhar essa acalmia, num movimento lento.
Espero contribuir para o nosso diálogo com a moderação de quem, por ofício, procura as razões de cada um, e não a razão que só um pode ter.