Imagem de Liniker, Waterboys e Europe na segunda noite do North Festival
Liniker (Paulo Pinho / North Festival)

Liniker, Waterboys e Europe na segunda noite do North Festival

É o "Final Countdown" na Cidade Desportiva da Maia, com o apoio da RTP Antena 1.

Imagem de Liniker, Waterboys e Europe na segunda noite do North Festival

Liniker, Waterboys e Europe na segunda noite do North Festival

É o "Final Countdown" na Cidade Desportiva da Maia, com o apoio da RTP Antena 1.

Na Cidade Desportiva da Maia, desconstrói-se aquela ideia feita: de que um festival apresenta os seus artistas por ordem crescente de magnitude. Foi o que North demonstrou, no palco principal, com um concerto de Liniker antes do anoitecer. Menos de 24 horas após um concerto no Coliseu de Lisboa, a cantautora paulista voltou a apresentar “Caju”, álbum vencedor de três prémios no Grammy Latino de 2025, e que não é novidade para a RTP Antena 1.

Se nos tornamos cada vez mais familiares do repertório, a performance de Liniker, antiga líder dos Caramelows, permanece motivo de surpresa: o enlevo com que leva cada canção aos lábios, como se ela própria descobrisse em tempo real a potência e a sensualidade de temas que ela própria compôs. “Veludo Marrom”, escrita no meio do trânsito na sua cidade natal, é um dos mais finos espécimes desse talento: toda a extensão da voz a servir uma melodia expansiva, a igualar o poderio da guitarra elétrica (lembrando a canção de assinatura do saudoso D’Angelo). Há sopros pujantes, há linhas de baixo gordo a atravessar todo o repertório: seguindo o mote de “Caju”, também as canções mais antigas são redesenhadas à luz da soul e do funk desse disco.

“São onze anos cantando minhas poesias, minhas histórias”, refletiu a cantora a meio do concerto, acerca do que significa ser uma compositora pelo mundo fora. “É uma honra poder ver estas músicas existindo na boca de vocês junto comigo.” E saboreou essa honra até ao fim, despedindo-se com “Charme”, despindo gradualmente o arranjo até sobrar apenas a sua voz, o coro do público, as palmas da sua banda.

 
 
 
Maré alta com os Waterboys

Numa noite mais composta do que a primeira, os Waterboys – proponentes de uma sonoridade expansiva, com guitarras estridentes – lançam-nos numa frequência inesperada (com algum feedback lamentável). É um piano honky tonk, a afinar pelo diapasão da música country, a dar corpo a uma versão do mítico Willie Nelson (“Me and Paul”, 1985) – ou também a enveredar por algo mais rockabilly, como na faixa de 2017 “Nashville, Tennessee”.

No público, estarão ouvintes a acompanhar há quatro décadas o grupo do escocês Mike Scott, responsável por álbuns celebrados como “This Is the Sea” (1985) e “Fisherman’s Blues” (1988). A canção-título de “Fisherman” foi a segunda canção de um alinhamento dividido entre reinterpretações enérgicas de outros autores – incluindo Bob Dylan, com o poderoso “Knockin’ on Heaven’s Door” (original de 1973), e os Rolling Stones, com a interessante – e temas da banda.

Os próprios Waterboys mantêm-se produtivos: o seu último disco, “Life, Death and Dennis Hopper”, foi editado em 2024, e fez-se representar por várias faixas no North Festival. O seu mais recente single, “Don’t Even Have to Say His Name”, editado no passado mês de maio, é uma aparente diatribe contra Donald Trump: sinal de uma ainda forte “verve política”, como apontou Rui Alves de Sousa, pivô da emissão especial da RTP Antena 1.

Europe: contagem decrescente, volume crescente

O apelido Tempest não é profético: foi a escolha certeira de Rolf Magnus Joakim Larsson para nome artístico, enquanto líder dos suecos Europe. Irrompem pelo palco com um rufar estrepitoso, a anunciar a sua chegada com “Walk the Earth”: são, afinal de contas, um dos grupos mais populares de hard rock.

Será justo serem lembrados quase exclusivamente por “The Final Countdown”? Não são one hit wonders: “Rock the Night”, “Cherokee” e “Superstitious” também são canções de assinatura. “Carrie”, outro êxito destacado, é uma balada de peito feito, carregada por um vocalista ainda em forma (só não levou a uma profusão de isqueiros no ar porque não é 1986, mas ativou algumas lanternas de telemóvel). Mas se alguém tiver a impressão errada, “tudo bem”, assegurou Tempest em entrevista a Herberto Quaresma, comentador da emissão especial da RTP Antena 1. “Sabe porquê? Os Europe são a mesma banda que gravou esse disco há 40 anos: somos ainda os membros originais [que se ouvem] em ‘The Final Countdown’. Para nós, é apenas um dos nossos álbuns. E um ótimo álbum.”

Logo após “Cherokee” abrir o encore, foi com “The Final Countdown” que terminaram o concerto no North Festival: o destino irónico de uma canção originalmente desenhada para abrir os concertos da banda, que nunca a imaginou um single. E o hoje icónico riff de teclado – épico em todo o seu melodrama, composto por Tempest – foi contestado pelo resto do grupo, que teve de ser persuadido pela editora. Hoje, fez milhares saltarem no estádio da Maia, num concerto que passou por álbuns como “Last Look at Eden” (2009) ou o vindouro “Come This Madness” (com edição marcada para setembro). Com o volume nos píncaros e sempre com solos ostensivos de guitarra, estes são os Europe.

Acompanhe toda a ação do North, com a nossa última emissão especial este domingo (7 junho) depois das 22h, com Rui Alves de Sousa e Herberto Quaresma. Há também conteúdos para ver nas nossas redes sociais.
Fotografias de Paulo Pinho