Este domingo, os acessos à Cidade Desportiva já o denunciavam: o North Festival aguardava uma enchente de 40 mil pessoas para ver os The Cure. As camisolas com o rosto de Robert Smith – vocalista do grupo responsável por êxitos como “Friday I’m in Love”, “Just Like Heaven” e “Close to Me” – pontilhavam as ruas da Maia, envergadas por pais e filhos, locais e estrangeiros. Mas, antes do regresso dos Cure a Portugal, sete anos após o seu último concerto, havia duas bandas para escutar.
Linda Martini abriram o único dia esgotado do North Festival, perante um recinto já preenchido (mais do que acontecera para Snow Patrol e Europe, espectáculos finais das primeiras noites). “Passa-Montanhas”, álbum editado em 2025, foi o prato forte de um concerto adequadamente intenso, com riffs trovejantes de guitarra elétrica, sem papas na língua. Houve tempo ainda para recuperar outros temas da banda, como “Boca de Sal” (2018).
Herberto Quaresma, comentador da emissão especial da RTP Antena 1 – conduzida por Rui Alves de Sousa –, entrevistou o guitarrista Rui Carvalho e a baixista Claúdia Guerreiro. “Fomos parar a um sítio que se calhar não existia: ainda não era o nosso, não era o de ninguém. [Na música portuguesa] tinhas uma [cena] mais pop, e tinhas coisas que ninguém ouvia. Continua a haver esses dois meios, [mas também] o intermédio: um lugar mais raro e no qual, se calhar, tivemos a sorte de nos encaixar”, refletiram acerca de um percurso que, defendem, distanciou-se dos lugares-comuns.
Os Mogwai justificaram, à hora do crepúsculo, o seu estatuto enquanto expoentes do pós-rock (termo do jornalista Simon Reynolds), isto é, uma derivação experimental, atmosférica e pouco convencional do rock. A sugestão psicadélica das imagens e as luzes vermelhas de fundo acompanham o sol poente, durante um espectáculo ancorado em “The Bad Fire”, o disco mais recente dos escoceses. Mas as honras de encerramento couberam ao épico “My Father My King”, teste aos extremos do som, do silêncio à explosão total. Foram a escolha de Robert Smith para tocar antes dos Cure neste dia, continuando uma colaboração de longa data (desde o festival “Curiosa”, de 2004).
The Cure em apoteose
Os The Cure entram em palco faseadamente, entre ruídos de tempestade, com vista para o firmamento. A este ponto na sua carreira cinquentenária, sentimo-los mais próximos, mais terra-a-terra – o que não diminui a tensão, não dilui a paisagem sonora, a potência de uma discografia emblemática do rock gótico e alternativo, com picos em “Disintegration” (1989), “Pornography” (1982) ou “Wish” (1992).
Neste concerto cimeiro do North Festival, dado na noite seguinte ao espectáculo no Primavera Sound Barcelona, revisitam essa obra com uma curadoria em jeito de greatest hits. O que nos obriga a reconhecer as contradições inerentes à banda, e que a tornam tão estimulante: há a memória pública dos The Cure, associada à rock dançável desses temas orelhudos que citávamos no início do texto, e há aquilo que se pode dizer a medula óssea da sua música, uma sombra gótica, uma angústia tangível. Robert Smith encapsulou-o perfeitamente, à beira da despedida, com “Boys Don’t Cry”: “Esta noite foi uma grande diversão… misturada com terror. Que é como todos os espectáculos dos The Cure devem ser.”
Um fim diametralmente oposto ao princípio do concerto, com “Alone”, a faixa de abertura do álbum “Songs of a Lost World” (2024): onde se sente o peso da mortalidade, onde a perda se converte num jogo simples de bateria e teclados. E se uma parte do espectáculo foi dedicado inteiramente ao álbum “Seventeen Seconds” (1980), um tratado do pós-punk mais sombrio, o encore ficou entregue a todas as canções de assinatura já mencionadas, e alguns dos temas mais dançáveis, como “Why Can’t I Be You?” e “Wrong Number”. Do jangle pop de “Mint Car” à euforia de “Fascination Street”, passando pelo sopro do coração em “Pictures of You” e “Lovesong”. Ao fim de duas horas e meia de concerto, o North era deles.