O cenário é um teatro de ópera. Mas não apenas o palco, a plateia e o foyer que todos podemos quando ali vamos ver uma récita… Desta vez vamos mais longe, até às entranhas do edifício, correndo salas, corredores e tudo mais, desde as caves até à teia que fica por cima do palco. Porque é por ali que mora uma figura com o rosto desfigurado, cuja presença quase invisível acaba por revelar um estranho poder sobre tudo o que ali acontece. Chamam-lhe “O Fantasma da Ópera” e a sua aparente assombração sobre tudo e todos dita a lei no teatro, sobretudo quando, perante uma nova produção, ele revela uma capacidade para interferir sobre as escolhas do próprio elenco.
O primeiro episódio das “Notas no Palco”, levam-nos ao mundo do Fantasma da Ópera…
É bem verdade que o simples enunciar do nome “O Fantasma da Ópera” é por muitos diretamente associado, desde meados dos anos 80, a um dos mais célebres musicais com berço no west end londrino. Mas na verdade esta é uma história bem mais antiga e que, antes mesmo da visão criada com música de Andrew Lloyd Weber e libreto de Charles Heart, já tinha conhecido várias adaptações ao teatro e ao cinema. E tem na origem um livro. Uma ficção do francês Gaston Leroux que surgiu originalmente num folhetim publicado pelo diário Le Gaulois entre 1908 e 1910.
Esta é uma ficção. Mas há factos reais que podem ter sido possíveis fontes de inspiração para esta história. Por um lado o acidente com a queda de um lustre que de facto ocorreu na Ópera de Paris a 20 de maio de 1896, causando um morto, mas também a cisterna que se encontra sob o edifício. Já no plano das mitologias estão histórias que, partindo de casos reais, criaram entretanto lendas que ficaram associadas àquele lugar. Uma delas fala de um esqueleto, supostamente de um bailarino, havendo também quem o refira como tendo sido de um compositor, contando-se que foi usado em cena durante uma produção, em 1841, da ópera “O Franco-Atirador” de Carl Maria Von Weber.
Há uma outra mitologia que evoca memórias de um incêndio ocorrido em 1873 numa outra sala de ópera parisiense, que teria tirado a vida a uma bailarina e desfigurado um pianista que seria o noivo e teria passado a viver num subterrâneo depois do incidente. E como se isto não bastasse há ainda a história do Visconde de Chagny que andou desaparecido durante 15 anos e que, mal regressou a Paris, pediu um bilhete… ara a ópera.
Mas avancemos para lá das mitologias e falemos sobre o escritor Gaston Leroux, admirador de Edgar Allan Poe e Arthur Conan Doyle. Para desenvolver esta história associou uma série de personagens de ficção a um mesmo lugar: a ópera de Paris, ou seja o Palais Garnier, uma casa que foi inaugurada em 1875. E depois juntou-lhe tanto os factos como as mitologias e até ecos das narrativas das óperas entretanto ali apresentadas. E assim nasceu um folhetim de tempero gótico que nos leva à Ópera de Paris. É ali que vive Erik, um aficionado da ópera, desfigurado e perturbado, e que mora escondido, algures no edifício. Erik descobre uma jovem cantora que toma como aluna e protegida. Encantado pela voz de Christine ele usa os seus “poderes” para afastar a diva que até ali brilhava no palco… Mas um triângulo amoroso acaba por juntar nesse ser misterioso e a cantora-revelação a um outro jovem que por ela nutre uma paixão desde os dias de infância. Os dados estavam lançados… E a reação dos leitores não se fez esperar.
O impacte do folhetim, a sua edição em livro, em França, logo depois, ainda em 1910, e as traduções que se seguiram, geraram descendências quase imediatas. E logo em 1916 surgia na Alemanha uma primeira adaptação ao cinema que hoje é dada como desaparecida. Nove anos depois, em 1925, chegava uma segunda, desta vez de produção norte-americana. Apresentava-se como “The Phantom of The Opera”, era assinada por Rupert Julian, tinha Lon Chaney como protagonista e, apesar de ser um filme mudo, contou com música de Gustav Hinrichs que podia ser interpretada ao vivo durante a sua projeção.
Este mesmo filme, que teve depois uma versão sonorizada, conquistou uma boa receita nas bilheteiras e abriu caminho a outras novas versões, adaptações e declinações que surgiram nos mais variados berços, desde a China ou do Reino Unido à Itália, México ou Argentina.
Tal como o cinema, também o teatro descobriu aqui um texto com enorme potencial para viver no palco. E desde os anos 40 foram surgindo produções e adaptações, uma delas no México, nos anos 70, com música original de Nacho Mendez. Outra, estreada no Duke’s Playhouse em Lancaster (no Reino Unido), em 1976, contava com música original de Ian Armid, revistando também a ópera “Fausto” de Gonoud. E foi ao voltar a esta peça, seis anos depois, que o encenador Ken Hill repensou a música, juntando como ponto de partida árias de óperas de compositores como, não apenas Gonoud, mas também Offenbach, Bizet ou Verdi, que podiam de facto ser apresentadas na Ópera de Paris.

“O Fantasma da Ópera” com letra de Ken Hill (1976)
Esta nova adaptação de “O Fantasma da Ópera” foi estreada em Newcastle em 1984. E quando esta produção chegou ao londrino Theatre Royal Stratford East, um companheiro de trabalho de Ken Hill passou, numa noite, pela plateia do teatro. Chamava-se Andrew Lloyd Webber e tinha recentemente trabalhado com Ken Hill numa nova produção do seu “Joseph and the Amazing Technicolor Dreamcoat”.
Depois dessa noite Lloyd Weber ofereceu-se para levar o musical de Ken Hill ao mais central west end londrino. Mas o projeto não se concretizou. E o músico, fascinado pela história, acabou mesmo por desenvolver o seu próprio musical. Em 1984, ou seja, no ano em que estreou “Starlight Express” e começou a trabalhar neste novo projeto, Andrew Lloyd Weber já tinha no seu currículo uma série de musicais de grande sucesso. E de facto fizeram história “Joseph and The Amazing Technicolor Dreamcoat” em 1968, “Jesus Christ Superstar” em 1970, “Evita” em 1976 ou “Cats” em 1981…
Já com este novo desafio em mente, Andrew Lloyd Weber visionou algumas das adaptações do velho folhetim ao cinema. Encontrou uma edição antiga do texto original. E, com a adaptação de Ken Hill também como fonte de inspiração, embarcou num projeto que há muito sonhava: a criação de uma grande história romântica.
Para a escrita do libreto, e depois de uma série de tentativas sem sucesso, decidiu apostar em Charles Heart, um talento emergente que tinha terminado recentemente uma pós graduação na Guildhall School of Music and Drama e estava entre os concorrentes aos Vivian Ellis awards, nos quais o próprio Lloyd Weber e o produtor Carl MacIntosh integravam o painel de jurados… Tantas coincidências só podiam gerar uma colaboração… Os dados estavam lançados. Os caminhos estavam cruzados. E, juntos, seguiram em frente.
Lloyd Weber compôs a música, que incluía árias de duas óperas ficcionais que são apresentadas no decorrer da trama. Com a estreia em palco em vista, Maria Björson tratou dos figurinos e Hal Prince assegurou a direção de palco. E, em 1985 o primeiro ato, numa versão ainda inacabada, foi apresentado a convidados na casa do próprio compositor. Algumas das letras ainda seriam substituídas. E a máscara do fantasma, que até aí lhe tapava todo o rosto, foi modificada para destapar parte da face e permitir uma melhor performance vocal ao cantor.
Entretanto, e com a data da estreia no então Her Majestie’s Theatre, no West End londrino, ainda para lá da linha do horizonte, uma estratégia de promoção investiu na rádio e nos discos. E Sarah Brightman, a mulher do compositor, a quem caberia na produção original o papel de Christine, gravou em dueto com Steve Harley (ou seja, a voz dos Cockney Rebel) uma versão da canção-titulo do musical.
O single foi editado em janeiro de 1986, teve direito a teledisco e subiu ao número 7 na tabela de singles do Reino Unido. E em setembro, a dias da estreia do musical, um novo dueto de Sarah Brightman colocou-a desta vez ao lado do veterano Cliff Richard para cantar “All I Ask Of You”, que subiria mais alto ainda, alcançando o número 3 no Reino Unido e o número um na Irlanda. Um terceiro single, com “Music of The Night”, surgiria mais adiante, já em 1987, desta vez com a voz de Michael Crawford, a quem coube a criação do papel do próprio fantasma entre 1986 e 1989 tanto em Londres como na Broadway e ainda na digressão norte-americana que se seguiu.
Por essa altura “O Fantasma da Ópera” era já um fenómeno de sucesso. A estreia, a 9 de outubro de 1986, a sucessão de singles, o álbum gravado pelo elenco original e as primeiras visitas ao outro lado do Atlântico, inscreveram este musical na história dos triunfos tanto no West End como na Broadway. E em ambas as produções Michael Crawford (Fantasma) e Sarah Brightman (Christine Dae) partilhavam o palco com Steve Barton, no papel do Visconde de Chagny.
E sobre a história?… Em traços largos aqui é contada a história de um Teatro de Ópera, a Opera Populaire. Este é um teatro que é “assombrado” por um Fantasma que exige uma mesada e um camarote para seu uso pessoal. E este é um fantasma que toma decisões sobre o rumo dos acontecimentos, independentemente de a Opera Populaire ter agora novos proprietários… Pelo que se sabe, o fantasma teve uma infância traumática, marcada pela repulsa causada pelo seu rosto desfigurado. Vive desde há muito nas entranhas do teatro. E tem os seus aposentos bem escondidos para lá de uma rede de canais na cisterna que mora sob toda a estrutura…
O fantasma vive atento aos talentos que passam pelo teatro, e aposta numa jovem cantora, Christine, de quem se torna tutor… Mas o mestre acaba apaixonado. E o conflito estala quando Christine ali reencontra uma antiga paixão de infância: o Visconde de Chagny. No fundo, segue-se à risca o folhetim de Gaston Leroux… E aqui a trama envolve armadilhas, vinganças, mortes… E junta-lhes um romance em clima gótico vincado por uma música que cruza escolas clássicas com ecos da canção pop/rock…
Durante anos, “O Fantasma da Ópera” foi um sucesso nos teatros e nos discos. Mas a hipótese da adaptação do musical ao cinema foi levantada relativamente cedo, em 1989. E os então recentes filmes juvenis “St Elmo’s Fire” e “The Lost Boys”, nos quais o próprio Andrew Lloyd Weber reconheceu engenho na relação com a música, apontaram logo a Joel Schumacher como parceiro certo para realizar esta adaptação. Os filmes estrearam respectivamente entre nós como “O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas” e “Rapazes da Noite”…
A estreia da adaptação por Joel Schumacher só ocorreu em 2004. Numa primeira fase o atraso deveu-se ao processo de divórcio entre Lloyd Weber e Sarah Brightman. Depois a ideia manteve-se em pausa. Até que tanto o compositor como o realizador entenderam ter chegado o momento. E aí avançaram para uma produção que foi tudo menos simples e económica. Os cenários do exterior do teatro, do foyer, da sala de espectáculos, dos bastidores e da cisterna foram levantados nos estúdios Pinewood. No elenco surgiam jovens atores como Gerard Butler, Emmy Rossum, Patrick Wilson ou Minnie Driver e veteranos como Miranda Richardson, Simon Callow ou Kieran Hinds. E, tal como sucedera com a adaptação ao cinema de “Evita”, por Alan Parker, em 1997, Andrew Lloyd Weber compôs uma nova canção para o filme, voltando a chamar Charles Heart para escrever a letra. Essa canção original (“Learn To Be Lonely”) correspondeu depois a uma das três nomeações para os óscares obtidas pelo filme. As outras duas foram para Direção de Fotografia e Direção Artística.
Sete anos depois uma nova incursão por este corpo de canções ganhou forma numa nova produção que foi apresentada no Royal Albert Hall. Assinada por Carl Mackintosh a nova produção contou com um elenco e orquestra envolvendo mais de 200 pessoas e um conjunto de convidados na plateia, entre os quais a cantora Sarah Brightman ou o próprio Andrew Lloyd Weber. Esta produção comemorativa do 25º aniversário da estreia do musical recorreu a um grande ecrã sobre a orquestra e usou o palco de forma distinta da conhecida nas habituais apresentações em residência. Usou adereços, figurinos, coreografia, mas na verdade propôs algo entre as produções encenadas habituais e as versões de concerto que o mundo da ópera tão bem conhece. O Royal Albert Hall acolheu esta produção durante duas noites, a 1 e 2 de outubro de 2011. Mas a plateia transcendeu a da sala londrina, uma vez que houve transmissões em direto para salas de cinema pelo mundo fora. E, depois, edições em DVD, Blu-Ray e CD…
Por estes dias “O Fantasma da Ópera” tinha já colecionado uma multidão de prémios, com dois Lawrence Olivier Awards para a produção londrina original ou os sete Tonys para a produção que chegou à Broadway em 1988… E a somar a estes muitos outros que se seguiram. O sucesso foi tal que uma sequela chegou a surgir em 2010, uma vez mais com música de Andrew Lloyd Weber. Chamou-se “Love Never Dies”.
O episódio estreia dia 1 depois das notícias das 23.00 na Antena 1. E está já disponível na plataforma RTP Play. Uma versão com mais texto e mais entrevistas está disponível nas plataformas de streaming Spotify e Apple Podcasts.
Os episódios desta primeira temporada de “Notas no Palco”, com autoria de Nuno Galopim, incluem entrevistas com Joaquim René (diretor dos teatros Variedades e Capitólio), o encenador Paulo Sousa Costa, os atores (e cantores) Fernando Fernandes (FF), Sissi Martins e Mariana Marques Guedes e ainda o crítico de cinema João Lopes.