1.
Passaram vinte anos, mas não há um único dia em que Luís não tenha pensado na filha que viu, no dia 17 de fevereiro de 2006, pela última vez.
Rita tinha 18 anos.
Vestia de ganga, tinha um casaco escuro e umas sapatilhas.
Desapareceu sem deixar rasto.
Nunca houve um indício… mínimo que fosse.
Nenhuma pista de que o corpo poderia estar aqui ou ali.
Nenhum telefonema anónimo a contar que alguém a vira num lugar qualquer.
2.
O pai e a mãe procuraram sempre.
Sobretudo ele, o pai Luís, empresário que já voltou milhares de vezes ao último dia de Rita, o último em que saiu de casa e se despediu como sempre.
Bonita.
Bem-disposta.
Simpática.
O pai Luís que a procurou em tantos lugares sombrios.
Em tantas encruzilhadas.
Em tantas cidades.
3.
Procurou-a em lugares de droga.
Mostrou a sua fotografia a traficantes, prostitutas, chulos, gangsters.
Misturou-se com as almas caídas no Bairro do Cerco ou do Aleixo, no Porto.
Tentou comprar informações a ratos de esgoto.
Visitou buracos em Vigo, estações de comboio abandonadas e leu sobre quadrilhas, tráfico de órgãos e corpos perdidos em rios e mares.
Foi a acampamentos de hippies e interessou-se por seitas religiosas.
Nada de nada.
Rita Slof Monteiro desapareceu há vinte anos.
Foi vista pela última vez no Mercado de Matosinhos e o pai já não sabe onde a procurar mais.
Sabe que precisa de continuar a fazê-lo até ao derradeiro sopro da sua vida.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.