A história de um amigo que podia ter sido tudo

Era brasileiro, tinha 50 anos, e podia ter sido tudo. Chamava-se André Zamorano, morreu no final de agosto e foi cremado em Alhos Vedros. A história maravilhosa de uma vida por cumprir.

A história de um amigo que podia ter sido tudo

Era brasileiro, tinha 50 anos, e podia ter sido tudo. Chamava-se André Zamorano, morreu no final de agosto e foi cremado em Alhos Vedros. A história maravilhosa de uma vida por cumprir.



1.

Tenho pensado muito nele.

É provável que nunca te tenhas cruzado com o seu nome, não importa.

André Zamorano nasceu no Brasil, no Bairro Brás de Pina, norte do Rio de Janeiro.

Era um fervoroso carioca, fanático do Flamengo e ainda mais do Zico que jurava ser melhor que Pelé.

2.

André veio para Portugal, mas o Rio nunca saiu do seu corpo, dos seus olhos, do que nunca deixou de procurar nas músicas que ouvia e na vida que o deixava mais amargurado do que o seu coração merecia.

A sua irmã, a escritora Andrea Zamorano, puxava por ele, pela sua capacidade de sonhar, de se revoltar, de se cumprir.

É que o André era um talento.

Não quero poupar nas palavras.

Quando o André queria ter piada, tinha mesmo muita piada. Chorávamos a rir com os seus espetáculos improvisados. O seu talento de humorista era esmagador.

3.

O André era assistente de produção nos Ficheiros Secretos, monólogo que tive a honra de levar à cena em todo o país. Era um tipo inexcedível, generoso, vigilante.

Não tinha de me preocupar com nada pois nunca falhava.

Quando corria muito bem, deixava-se engolir pela sombra.

Mas quando sentia que era necessário não tinha de perguntar por ele.

Um dia, antes de entrar em palco, estávamos os dois no camarim, perguntei-lhe:

– André, porque não voas?

4.

Morava na Moita.

Tínhamos a minha idade, cinquenta e poucos.

Era casado e amava os dois filhos sem conseguir dizer o quanto os amava e quanto sofria por eles.

Havia nele qualquer coisa que o arrebatava para a tristeza, talvez um destino ou uma premonição.

Quando o conheci já era magro, mas falava muito dos seus tempos de gordo, maior do que o Jô Soares ou o Tim Maia.

5.

Não o conheces, mas ele podia ter sido tudo.

Podia ter sido um gigante.

Aplaudido por milhões e com casa de marajá em Búzios e no Leblon.

Mas não foi isso que a vida quis do André.

Morreu no final de agosto e foi cremado em Alhos Vedros, longe do bairro onde era um ídolo dos amigos e o mais apaixonado dos loucos adeptos do Mengão.

Querido André.

Voltaremos a ver-nos em algum lugar.

Um dia, como prometido, vais ensinar-me a sambar.

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