1.
Não falta muito para fazer 100 anos.
É cardeal, nasceu na Albânia, vive em Florença e não há no mundo ninguém que eu mais gostasse de conhecer.
Chama-se Ernest Simoni e um dia será santo.
Foi ordenado padre em 1956 – pouco mais de dez anos após o regime comunista de Enver Hoxha ter conquistado o poder na Albânia.
Em 1963, na véspera de Natal, prenderam-no e condenaram-no à morte por insistir em evangelizar e falar de Jesus Cristo.
A reação popular foi grande e a pena foi reduzida para perpétua.
2.
Esteve 28 anos preso.
Enviaram-no para minas e esgotos.
Torturaram-no física e psicologicamente.
Condenaram-no à solitária, a não ver a luz do dia, ao pão e à água.
Ao chicote.
Mas nunca o quebraram.
Nunca o conseguiram ouvir dizer que renegava o seu Deus.
3.
Celebrava a Missa em segredo.
Improvisava hóstias e vinho.
Abraçava os que perdiam a fé.
Em 1989, após a queda do Muro de Berlim, todo o Pacto de Varsóvia se desfez como peças de dominó numa tasca barata.
Foi libertado.
Jornalistas de todo o mundo ofereceram-se para contar a história.
E o novo poder na Albânia ofereceu-lhe todo o protagonismo.
Mas ele…
Apesar dos trinta anos de prisão…
Apesar das torturas e das marcas no corpo…
Preferiu perdoar.
Visitar na prisão os que lhe bateram, os que o pontapearam, os que o escarraram, arrancaram unhas, obrigaram a fazer as necessidades dentro da cela durante semanas a fio…
…os que o ameaçaram com pistolas carregadas na cabeça.
Simoni tem quase 100 anos.
Vive em Florença, um dia será santo e eu quero abraçá-lo como um dia desejei abraçar Mandela.
Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.