1.
Quero contar-te hoje a história de um homem rico.
Um burguês que nasceu no século XVIII.
Um milionário que não se fez a si próprio, o pai já era um distinto e endinheirado comerciante do Porto.
Herdou com os irmãos a massa do pai, mas tinha ideias que assustavam. Queria deixar uma marca que perdurasse, uma marca que não fosse feita de maços de notas, mas de poder na vida das pessoas.
Era um megalómano como todos os que conquistam a imortalidade e como tantos que sucumbem ao seu próprio ego.
2.
Chamava-se José.
José Ferreira Pinto Basto.
Nasceu no século XVIII e cumpriu o que tinha em mente no século seguinte.
Cumpriu e superou as expetativas dos que nele apostaram – até do próprio D. João VI que lhe deu autorização para ser dono do seu próprio futuro, dono seu próprio projeto.
O projeto chamava-se Vista Alegre.
3.
No passado ano, ou ainda em 2024, não tenho bem presente, celebraram-se os 200 anos da empresa.
Dois séculos de história que não me interessam tanto hoje quanto a reposição da justiça.
É que é completamente falso quando se diz ter sido Alfredo da Silva, décadas mais tarde, a revolucionar a indústria do trabalho.
Alfredo, sendo justo e verdadeiro, fez na CUF o que, décadas antes, foi realizado por José Pinto Basto.
4.
Foi ele, o fundador da Vista Alegre, quem criou um projeto social revolucionário – nunca existira um bairro operário daquela dimensão, com escola para as crianças, cuidados de saúde e… imagina… um teatro onde, aos sábados à noite, havia circo, teatro, poesia e até ópera.
Nunca tal se vira.
E logo num lugar fora de Lisboa e do Porto, a terra de Ílhavo onde apenas existiam pescadores, mar e pobreza.
5.
De parvo não tinha nada.
Os sonhos existiam e multiplicavam-se, mas somava a isso um enorme pragmatismo.
Casou com uma mulher rica, não sei se por amor ou por conveniência das duas famílias, uma portuguesa e a outra inglesa.
Uniu-se com Bárbara, filha de um comerciante inglês com dote e ambição.
Com ou sem amor tiveram 15 filhos…
…coitada da Bárbara, se a coisa se deu por interesse.
6.
José ganhou o seu próprio poder alavancado no dinheiro que os seus operários o ajudaram a ganhar.
Amavam-no, ao que se diz.
Não eram colaboradores.
Eram trabalhadores.
Operários, uma outra família.
Repetia isso aos seus filhos, não sei se com resultados ou não.
Um dos seus netos ou bisnetos, Guilherme, esteve no grupo restrito dos que trouxeram o futebol para Portugal.
Importou-o de Inglaterra e depois é história.
É interessante a curiosidade de ver Cristiano Ronaldo como investidor da Vista Alegre…
…talvez não saiba esta estória.
O pai do futebol português era bisneto do homem que fundou a ideia de que os trabalhadores deveriam ter direitos.
Afinal, gente alegre produz melhores resultados.
Todos ficam a ganhar.
É ou não é?
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