1.
António Guterres adorava falar dela nas reuniões sobre Gaza.
Das suas mensagens nas redes sociais, das brincadeiras com outras crianças, das danças, da esperança que cultivava entre os amigos da escola em Deir al-Balah.
Durante meses aquela menina palestiniana de 11 anos fazia lembrar o Guido de “A Vida é Bela”.
Transformava bombas em sorrisos.
Morte em recomeço.
Tristeza numa dança.
2.
Guterres chegou a falar com a menina por vídeo.
Uma menina que era luz.
Yaqeen divulgava as brincadeiras nas redes sociais.
Tinha milhares de seguidores que a visitavam todos os dias como se ela fosse o único passaporte para uma ideia de normalidade.
Para muitos era mesmo.
Obrigava quem a via e ouvia a esquecer-se da guerra.
Falava do futuro.
Da reconstrução.
Ensinava a cozinhar sem gás.
E na companhia de um dos seus irmãos distribuía brinquedos, roupa e comida a meninos órfãos de guerra.
3.
Da sua boca não escapavam palavras negativas.
Falava do bem, da beleza que se pode encontrar em todos os lugares, até no inferno.
Era a mais nova de cinco filhos de uma mãe que não tinha um coração suficientemente grande para o orgulho que sentia.
Foi mesmo isso que confessou aos jornalistas quando o mundo soube, em maio do ano passado, que a sua menina não tinha resistido a um bombardeamento israelita.
4.
Num dos seus últimos vídeos perguntava ao mundo se existia alguma coisa mais bonita do que o sorriso das crianças quando dançam.
No dia 23 de maio de 2025, as bombas de Israel levaram-lhe os passos.
Reza a lenda, ou a verdade, que António Guterres chorou a sua morte.
Reza a lenda, ou a verdade, que o Secretário-Geral das Nações Unidas passou verdadeiramente mal nos dias a seguir.
Nada é pior do que matar a esperança.
Fazê-lo com o intuito de o fazer.
Fazê-lo com o objetivo de desmoralizar, de assassinar a normalidade, de fazer o que tem de ser feito sem um pingo de sentimento de culpa.
5.
Não sou pró-palestiniano.
Nada me aproxima do modo de vida e da identidade palestiniana.
Também não sou pró-israelita.
Nada me aproxima do terrível sentimento de superioridade da identidade judaica ortodoxa que, infelizmente, está no poder.
Trago Yaqueen por ter sido esquecida na maioria dos obituários do ano. Esquecida do que tem sido recordado nas últimas semanas.
A menina de 11 anos que fez Guterres chorar.
A menina que simbolizava a esperança e o futuro em Gaza.
A menina que foi descoberta dentro dos escombros depois de um bombardeamento à sua casa, ao seu quarto.
Foi encontrada com uma boneca e o seu sorriso fora do corpo.
A tentativa de matar a esperança foi para mim o acontecimento de 2025.
Nenhum outro teve uma marca tão forte do mal.
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