O que se passa com os nossos filhos?

Num mundo em que ninguém se entende, há duas ou três matérias em que podemos estar de acordo. Os pais não sabem o que acontece nos quartos dos filhos… e nos seus telemóveis.

O que se passa com os nossos filhos?

Num mundo em que ninguém se entende, há duas ou três matérias em que podemos estar de acordo. Os pais não sabem o que acontece nos quartos dos filhos… e nos seus telemóveis.

1.

Não tenho nada contra os lugares comuns, pelo contrário. Um lugar-comum pode ser uma maravilhosa oportunidade de mais pessoas se entenderem ao mesmo tempo.

Não é uma oportunidade que se possa desperdiçar.

Sobretudo agora em que há zanga, raiva e animosidade.

Em que parece que não nos entendemos sobre coisa nenhuma.

2.

Vou arriscar um tema em que podemos estar de acordo mesmo pensando coisas diferentes ou opostas sobre o mundo, sobre o amor, sobre a política, sobre o futebol ou sobre a religião.

Os pais preocupam-se com os filhos.

Sacrificam-se por eles.

Temem pelo seu futuro.

Ofereceriam a sua vida sem hesitar se em causa estivesse a vida de um deles.

Podemos consensualizar em relação a isto?

Se eu e tu formos opostos em várias dimensões do que fazemos e pensamos, e se tivermos filhos, os dois seríamos capazes de tudo para os ver felizes, livres e bem-sucedidos.

E os dois, imaginando ter filhos adolescentes ou jovens adultos, podemos consensualizar que estamos preocupados.

Que não sabemos o que acontece nos seus quartos quando estão nos seus quartos.

Que não sabemos o que fazem no telemóvel ou no computador.

Que tememos por eles, que ficamos em pânico com novos perigos que não entendemos bem…

… desconhecemos com quem falam, se falam, se marcam encontros, se veem conteúdos que os iludem, se perdem tempo que os faz não terem a possibilidade de se cumprirem, tempo que nunca mais regressará, que nunca mais conseguirão recuperar.

3.

Os meus pais também não sabiam o que eu fazia.

E provavelmente os teus também não.

Arrisquei uma ou outra vez, nem sempre respeitei as passadeiras, nem sempre disse a verdade, mas os perigos eram outros, mais palpáveis, igualmente brutais, mas diferentes, mais compreensíveis.

Agora não, agora estamos desamparados.

Nós, pais.

E eles, filhos.

Nós por não sabermos.

Eles por acharem que sabem.

Nós por não compreendermos.

Eles por acharem que compreendem.

Quando tudo é virtual, tudo pode acontecer.

Quando tudo do outro lado é passível de ser imaginado, quando estamos dependentes de um ecrã, de telemóvel ou de computador, podemos ser puxados para um lugar sem regresso.

Não temos de saber o que se passa nos seus quartos, mas temos a obrigação de os resgatar para a vida real.

Onde há morte e desgraça.

Onde há perdas e desesperança.

Mas onde há sol, vento, chuva e frio.

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