Vou para a terra

Vou de férias para a terra. Toda a vida ouvi dizer isto. E sempre pensei, tendo nascido em Lisboa, que jamais teria a possibilidade de dizer o mesmo do que talvez não saibam a sorte que têm.

Vou para a terra

Vou de férias para a terra. Toda a vida ouvi dizer isto. E sempre pensei, tendo nascido em Lisboa, que jamais teria a possibilidade de dizer o mesmo do que talvez não saibam a sorte que têm.

1.

Passei a vida a ouvir pessoas dizerem que iam de férias para a terra.

Para quem nasceu em Lisboa ou no Porto é quase um ruido de fundo, deixámos de dar importância e de pensar na falta que nos faz ter uma terra.

Em criança matutava.

Se eles vão para a terra eu não vou para lado algum.

E quando fui, quando comecei a ir, as férias eram em sítios que não me pertenciam, lugares de passagem, a terra dos outros.

2.

Porque a minha cidade era o lugar onde os que tinham uma terra verdadeira, trabalhavam.

Sei que é confuso.

Até eu próprio me confundo.

Mas entendes o que desejo dizer?

Eu não tenho terra.

Ninguém diz que vai para a terra se ela for Lisboa.

Ou o Porto.

Dizemos vou para Lisboa ou vou para o Porto.

Mas se tiveres nascido numa aldeia afirmas com orgulho que vais para a terra…

…o sinal que a tens, que pertence, que és de…

3.

É uma maneira de afirmar que não pode ser tudo mau.

Que os lisboetas ou portuenses são privilegiados por terem mais oportunidades profissionais, mais ofertas culturais e mais rendimento em média…

…só não dizem que vão para a terra.

As suas férias podem ser paradisíacas, só que nada daquilo lhes pertence, nos pertence…

…é tudo passagem, é ir e vir.

E voltar a trabalhar.

Sempre sem saber para onde ir nas próximas férias.

Podemos ir para todos os lugares, só não podemos ir para a terra.

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