Morreu de doença prolongada

Este tempo é cruel, mas infantil. Nunca se fizeram tantas coisas inomináveis, mas também nunca tanto nos infantilizaram. Somos crianças num recreio de escola primária, talvez seja altura de crescer.

Morreu de doença prolongada

Este tempo é cruel, mas infantil. Nunca se fizeram tantas coisas inomináveis, mas também nunca tanto nos infantilizaram. Somos crianças num recreio de escola primária, talvez seja altura de crescer.

1.

Da longuíssima lista de exemplos que podia escolher para provar o quanto nos infantilizamos, ou o quanto nos infantilizam, escolho hoje uma das expressões que mais me irrita:

“Morreu de doença prolongada”.

Consegue ser mais estúpido do que trocar a bonita palavra “velho” pela expressão “sénior” ou “idoso”.

Podia continuar ou escolher outro tipo de exemplos…

…como nunca nos mostrarem a morte nas reportagens de guerra por precisarmos de estar protegidos do choque da realidade – ou será anestesiados?

Ou quando, sem ninguém nos pedir, transformamos o minuto de silêncio pela morte de alguém numa estrondosa salva de palmas – por nos ser insuportável o som do que não ouvimos?

2.

Mas “morrer de doença prolongada” é a mais cruel e estúpida das expressões.

E o mais cruel e perverso fim que nos poderia tocar.

Infinitamente mais do que partir com um cancro.

A doença prolongada é uma morte durante a vida.

Nela está implícito um sofrimento que dura, que nos consome no que temos de mais precioso; o tempo, a vida, a esperança.

Estar prolongadamente doente (e por fim morrer) é devastador, uma ferida que não para de abrir, uma dor impossível de travar, um ajuste de contas do medo.

3.

Para esconder a palavra “cancro” inventámos um mundo de possibilidade, todas piores.

E contribuímos para que estigmatização da doença não seja resolvida – mesmo quando temos hoje uma taxa de sucesso no tratamento maior do que alguma vez imaginámos antes.

O meu pai teve SIDA.

A minha mãe morreu com um cancro nos pulmões – quando lhe foi diagnosticado já era habitada por metástases noutros compartimentos do seu corpo.

Não morreu de doença prolongada, foram três meses.

4.

Encaremos as coisas de frente.

Chamemos os nomes pelos nomes que são.

Acabem com o “Dia de Reflexão” antes de todas as eleições.

Deixemos os miúdos subirem às árvores.

Não tratem os velhinhos como se fossem crianças.

Não digam falecer em vez de morrer.

Não peçam um cafezinho e um bolinho e uma torradinha.

Não falem na terceira pessoa.

E por favor…

…não escrevam que foi uma morte por doença prolongada.

Porque a vida é bem maior do que isso.

É coragem, combate, esperança, inquietação.

A dignidade do que somos também passa por aqui.

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