1.
Quando a Teresa morreu eu não escrevi.
E não fui ao funeral ou ao velório – raramente frequento despedidas, só o faço quando a ausência possa ser incómoda.
É obrigatório que fique escrito o essencial, o que talvez vários tenham esquecido por força de uma polémica que desviou atenções da sua marcante passagem por aqui.
2.
Em agosto faz um ano que morreu a pessoa com o sorriso mais bonito entre todas as que conheci.
Um sorriso empático, desarmante, de luz.
Teresa Caeiro era única por ser uma sucessão de deliciosos paradoxos que a tornaram irrepetível…
Uma mulher de direita, mas libertária.
Uma cosmopolita, mas solitária.
Fortemente eloquente, mas insegura.
Fumadora, mas nunca à frente dos pais.
Com uma educação rígida, mas aspirante à liberdade e até á irresponsabilidade.
Poliglota, mas eternamente à procura de uma palavra única que resolvesse todas as equações que a atormentavam.
3.
Conversei várias vezes com a Teresa.
Achava-a irresistível – mesmo depois de se ter escondido do mundo, mesmo quando acreditou que nela desertara toda a luz, eu nunca deixei de sentir a fortíssima impressão de que era única.
A Teresa ajudou muitas pessoas.
A partir de certa altura tornou-se uma espécie de desígnio, fazer as coisas acontecer, mexer no concreto, ser útil.
O meu pai deveu-lhe alguns favores nos seus anos mais penosos – e era comunista, o que para a Teresa tanto se lhe deu.
4.
Podia ter sido mais, ter sido tudo.
Era inteligente, rápida, bem preparada.
Podia ter apanhado o comboio certo, mas não o quis, decidiu não o fazer, preferiu prosseguir num difícil caminho de pedras.
Quero contar-te da Teresa a quem nunca chamei Teggy.
Não gosto dos nomes enfeitados, na volta é um preconceito de classe ao contrário, não sei.
Chamava-lhe querida Teresa.
E ela sorria, o mais bonito sorriso da minha vida.
E abria-o mais quando falava do Pedro, o miúdo hoje crescido que é o seu único filho – dela e do Vasco, alguém de quem gosto sem o conhecer para lá da superficialidade.
Falava também de uma irmã com quem nunca me cruzei.
Lia muito.
Era muito intensa.
Muito generosa.
Muito romântica.
Muito idealista.
Muito otimista, mas quando era pessimista era muito também.
Teresa Caeiro era muito.
Era tudo.
Fugiu toda a sua vida do menos, do suficiente, do medo.
Por isso, também o medo era muito.
E a insegurança, muita.
Era desmesurada e absoluta.
De uma gentileza transversal a ricos e pobres, a cultos e incultos.
Em agosto faz um ano que partiu.
Querido Pedro, deixa-me que te diga: não podias ter tido uma mãe mais extraordinária de tão devastadoramente única.
Que sejas muito o que decidires ser.
Foge do menos.
Escolhe o absoluto.
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