Continuo sem perceber o silêncio de Rui Costa sobre a continuidade de José Mourinho na próxima temporada como treinador do Benfica.
É certo que o setubalense tem contrato por mais uma época, mas também é público que há uma cláusula que permite a ambas as partes colocarem ponto final na ligação após o encerramento da atual.
Esta possibilidade foi colocada no contrato para permitir que quem ganhasse as eleições de outubro pudesse escolher um novo técnico se fosse essa a sua vontade.
O facto é que as eleições foram ganhas por Rui Costa que tinha contratado Mourinho e, que se saiba, a cláusula não foi anulada e está em vigor.
À exceção de duas ou três declarações muito de fugida, a primeira ainda em Madrid, há cerca de dois meses, pouco antes do segundo jogo com o Real, e as outras na sequência de umas idas à Assembleia da República, mais recentes, em que falou de um não assunto e de que estão juntos a preparar a próxima temporada, nunca mais ouvimos o Presidente do Benfica falar sobre este tema.
Do lado de José Mourinho têm sido várias as ocasiões em que mostrou disponibilidade e, mais do que isso, vontade para continuar na Luz.
Lembro-me de várias conferências de imprensa de antevisão de jogos do campeonato e, principalmente, aquela, no final do Casa Pia/Benfica, em que até foi mais longe do que seria suposto quando lhe perguntaram se era verdade que o empresário Jorge Mendes o tinha aconselhado a não ficar na Luz, a resposta foi bem clara: “Jorge Mendes é meu agente, mas eu sou o dono da minha decisão.” Na última vez que abordou o tema foi no sábado e já se percebeu uma pequena mudança de discurso: “Não posso dizer que fico porque não depende só de mim.”
Como é fácil de perceber, este assunto voltou à ordem do dia, após a vitória de domingo, em Alvalade, se é que alguma vez deixou de estar.
Da capital espanhola chegam notícias, cada vez mais insistentes – basta ler o sempre bem informado diário desportivo Marca – de que o telefone do treinador português pode mesmo tocar, tendo Florentino Perez do outro lado da linha.
Por aquilo que se tem sabido, José Mourinho pretende que Rui Costa lhe renove o contrato por vários anos, de forma a permitir-lhe montar uma equipa que lute por títulos. Uma equipa com outras caras, outras competências e outras soluções.
Na sua edição de hoje, o jornal Record dá mais uma achega ao assunto ao revelar o que disse Mourinho aos jogadores antes do Clássico: “quero ser campeão aqui.” É este o sonho que alimenta a vontade do setubalense, mas para isso precisa de mais tempo e, seguramente, de mais investimento para fazer as mudanças que acha necessárias para cumprir esse objetivo.
O currículo de José Mourinho é vasto. Já venceu 26 títulos na sua carreira que leva, como treinador principal, 26 anos. É uma média impressionante, mas,
em boa verdade, a última conquista foi há quatro épocas, quando venceu a Liga Conferência ao serviço da Roma e, para se encontrar a última vitória num campeonato, temos de recuar até 2015 quando venceu a Premier League pelo Chelsea. É muito tempo. Demasiado tempo.
Percebo, por isso, que José Mourinho queira continuar na Luz, mas com a possibilidade de lutar por títulos. Ele, melhor do que ninguém, sabe que os encarnados entram sempre para ganhar. Tal como sabe que regressar às conquistas é aqui muito mais fácil do que noutro campeonato qualquer.
Mourinho precisa disto: de voltar a vencer um título nacional e, parece-me que Rui Costa precisa ainda mais, depois de uma seca que já dura vai para três temporadas depois da dupla conquista do Sporting e da mais que provável vitória do FC Porto.
É por tudo isto que não percebo o tabu ou, se quiserem, a hesitação de Rui Costa.