https://youtu.be/UQD_XCTWCDE
1.
Jorge Jesus continua a ser o miúdo que jogava à bola nas ruas da Reboleira e a quem a mãe chamava pela janela.
Os amigos chamavam-lhe russo e fugiam dele quando estava com os azeites ou quando perdia em jogos em que as balizas eram feitas com mochilas ou nos bancos de jardim.
Andava à porrada como os outros, era pobre como os outros, mas havia nele uma loucura diferente, uma ambição de ganhar a vida, de ser o orgulho da mulher que mais amou até hoje.
2.
Jorge Jesus vai fazer 72 anos.
Mas só pode ser mentira porque ele nunca deixou de ser o que sempre foi.
Até na relação com a memória de Elisa, a mãe que perdeu para um cancro…
Jorge tinha quarenta e poucos anos, era treinador de uma equipa do Norte, creio que o Felgueiras, mas posso estar enganado…
… parte do dinheiro que ganhava, parte do que tinha, era para gastar no que a mãe precisasse.
Uma enfermeira a tempo inteiro, todos os tratamentos que a pudessem salvar e depois aliviar, o que fosse preciso.
Houve dias em que as dores eram horríveis e lhe faltava a morfina – Jorge conseguia a receita através de um médico amigo e voava na estrada para que ela pudesse ter um pouco de paz.
E chorava como um miúdo.
3.
O miúdo que ainda é.
O mesmo que vestiu de preto durante mais de dez anos…
…um luto por ela, a mãe Elisa que lhe gritava da janela quando a comida estava na mesa, que o abraçava como nunca mais foi abraçado.
4.
Jorge Jesus é um grande treinador.
Deveria ser o selecionador brasileiro.
Talvez ainda possa ser o selecionador português, quem sabe?
Tem 71, quase 72 anos.
E nos treinos continua a correr à frente dos seus jogadores.
Continua a passar-se como antes.
Continua cheio de televisões onde vê, pela noite dentro, todos os jogos que consegue.
Continua a sonhar e a fazer planos.
Continua a não dormir quando perde.
Continua a jogar à sueca com amigos.
Continua a ter 14 anos e a recordar a voz de Elisa a chamá-lo para comer um pastelão de batata ou uma panela de miúdos de frango.
Continua a ser o menino da mamã de um bairro pobre onde era diferente de todos os outros meninos.
Tinha qualquer coisa que não se percebia.
Talvez a loucura que distingue os que ficam na memória para sempre.
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