1.
Catarina Vaz Pinto casou com António Guterres há 25 anos.
Tinha sido secretária de Estado da Cultura no governo de um homem que só conheceu na tomada de posse.
Não foi à primeira vista.
Ou à segunda ou terceira.
Mas acabaram por conhecer-se e encontrar-se.
2.
Catarina é uma pessoa luminosa.
Uma mulher que me impressiona por ser de uma grandeza que não precisa de anunciar.
Casou com Guterres ainda ele era primeiro-ministro.
Acompanhou-o depois na travessia do deserto, na aventura de uma candidatura improvável a Secretário Geral das Nações Unidas, na sua nomeação e nestes anos difíceis, dolorosos e também desafiantes.
Acompanhou-o sempre sem nunca abandonar os seus objetivos, os seus trabalhos, os seus próprios sonhos.
3.
É uma mulher independente.
Com um sorriso mágico e uma capacidade de transformar o ruído em silêncio.
Das poucas vezes em que estive com ela, falei mais baixo…
…quase como se precisasse de respeitar o seu espaço.
Perguntaram-lhe vezes sem conta da razão para não estar mais vezes com o marido, para não dar entrevistas e ela nem sequer responde por tão óbvio lhe parecer.
Tem a sua vida.
António tem a dele.
Encontram-se no lugar que não nos pertence, que apenas a eles pertence.
E aos filhos.
Dois de António.
Um de Catarina, o Francisco que é o seu rapaz criado como mãe solteira, o que horrorizou a família católica praticante.
Mas Catarina é ela própria, radicalmente livre.
4.
Também por isso admirou Francisco Sá Carneiro na juventude.
Também por isso acredita na cultura como espaço de intervenção do que somos na nossa louca aspiração à liberdade e ao inconformismo.
Também por isso acredita na memória, nos alicerces do que a fez ser esta e não outra, a infância em Goa, o espaço, os cheiros, o seu caminho.
Querida Catarina, não deve ser fácil.
O mundo está a fugir-nos de controle.
Mas a liberdade nunca morrerá, é pelo menos isso que digo aos meus filhos.
Tenho absoluta certeza de que estamos juntos nessa vontade de não desistir.
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