1.
Na noite eleitoral fiquei triste com o resultado de Luís Marques Mendes.
Não por nele ter votado.
Não por não antecipar a sua derrota… tendo em conta o tempo e as suas circunstâncias.
Não por ter hesitado sequer que, no campo dos que acreditam na Democracia, não era o melhor candidato para combater a loucura que vivemos…
…uma loucura de ressentimento
De maus augúrios
De violência, agressividade, medo e ajustes de contas.
2.
Marques Mendes é um político à antiga.
Um político que foi, em alguns momentos, um bom ator secundário, mas sem nunca conseguir ganhar verdadeira popularidade com os primeiros papéis que foi tendo.
Pagou um preço alto por estarmos agora no território dos homens perfeitinhos, dos que ao longo da sua vida precisam de provar que não têm mácula.
Marques Mendes ganhou dinheiro a ser advogado de negócios que dependiam dos seus contactos.
Ok.
É recomendável?
Teria sido preferível se não tivesse acontecido.
Mas por esse prisma vários dos grandes políticos que conhecemos e admirámos nos últimos 100 anos, portugueses ou estrangeiros, não teriam conseguido ganhar uma única eleição.
3.
Adiante.
Lamentei por Luís Marques Mendes.
Estive para lhe ligar nos dias a seguir, não o fiz.
Soaria a cinismo – afinal, quis que perdesse, sem a mínima dúvida disso.
Mas vi-o, com a doce Sofia, sair do elevador acompanhado por meia dúzia de gatos pingados, ainda assim dignos e que merecem aplausos por terem estado, por não o deixarem ainda mais desamparado.
4.
Vi-o de mão dada com Sofia – talvez não estivessem de mão dada, mas para mim estavam…
… a quererem ir dali para fora, regressar a casa e sentarem-se, finalmente, num sofá onde pudessem descansar.
A desejarem sair, mas a ficarem.
A encararem o país.
A assumirem a derrota.
A ilibarem todos à volta, menos a eles.
Um e o outro, de mão dada, Luís e a Sofia, sempre discreta, mas que, por amor, por destino, por missão, aceitou percorrer a via-sacra da política, dos pedregulhos e dos croquetes envenenados, dos abraços que nada querem dizer quando se perde.
Sofia, que conheceu Luís, há mais de quarenta anos, numa escola secundária de Fafe.
Casaram, tiveram três filhos, têm netos e foi muito bonito vê-la, bonita e discreta, dizer perante todas as câmaras, que estava ali por amor.
Ouvi-la dizer, “amo-te Luís”
Tive pena por ela.
E por ele.
Foi triste.
Mas não tão triste como ver um antidemocrata poder agora ser Presidente da República.
Certamente que nos encontraremos por aí, no lugar dos que acreditam no amor.
Um abraço, Luís.
Um beijo, Sofia.
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