1.
O meu pai morreu há quase 15 anos.
Fui visitá-lo dezenas de vezes ao Hospital Egas Moniz – vi-o em coma, a sofrer, bem-disposto, conversador, calado, irascível, luminoso, pessimista e convicto.
O meu pai teve SIDA na altura em que ninguém sobrevivia.
Menos ele e uns quantos, não muitos, no mundo – diagnosticado em 1985, morreu em 2011, 26 anos depois.
2.
Só o vi chorar duas vezes.
Uma copiosamente, no funeral de Amália Rodrigues – e vi na televisão, não ao vivo.
Outra, mais discretamente, numa tarde de fim-de-semana no hospital.
Conto por ser uma história muito bonita.
Talvez até uma lição.
3.
Na cama ao lado estava um homem que não parecia um homem.
Velho apesar de novo
Decrépito
Gasto.
Quando entrei, estava sozinho, sem nenhuma visita.
Desviei os olhos dos seus olhos, confesso.
Não propriamente por me custar vê-lo, mas pela surpresa – a sua cara estava comida pela doença, tinha manchas e os olhos pareciam poder cair ou rebentar de tão esbugalhados.
Nunca vira alguém tão magro e tão esmagadoramente frágil.
4.
Cumprimentei-o, beijei o meu pai e sentei-me de costas para ele.
Uns minutos depois entrou uma visita.
Uma mulher da idade da minha avó, percebemos que era a mãe quando ouvimos uma voz sumida dizer…
…“Mamã”.
Muito simpática cumprimentou-nos e agradeceu ao meu pai pela força que dava a todos os doentes e ao seu filho.
Depois concentrou-se no seu príncipe.
5.
Eu e o meu pai ficámos a escutá-los, em completo silêncio.
Não consigo reproduzir a conversa, lembro-me de detalhes.
Da mãe a contar-lhe da casa, da caminha feita para quando pudesse sair, do cheirinho bom dos lençóis, do seu gel de banho preferido.
Mas também do orgulho que tinha por ser mãe dele.
Vi o meu pai de lágrimas nos olhos quando ouvimos:
“Meu querido filho, tens uma pele muito bonita, sem uma ruga. E o teu cabelo é o mesmo a que dei festinhas quando no dia em que nasceste te puseram no meu colo”.
Chorámos os dois.
E tentámos arranjar uma conversa de que não me recordo.
Depois eu saí.
E ela ficou.
Despedi-me deles.
E ele, de voz trémula e orgulhosa, contou-me o que eu já sabia…
…“é a minha mãe”.
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