1.
Já passaram quase seis anos pelo dia em que resolveu que o ponto final na sua vida seria parágrafo.
Continuo espantado com a incrível capacidade da realidade nos conseguir sacudir de alto a baixo – de nos revolver as certezas e os lugares que nos parecem comuns.
Pedro Lima atravessou para o outro lado da margem quando estava calor e não havia nuvens no céu.
Era verão e não lhe faltava trabalho como ator, modelo e em projetos que lançara.
Além disso, filhos maravilhosos, uma mulher que o amava e o amparava no seu cisma de solidão…
…tinha tudo, mas sentiu que não lhe era possível mais.
2.
Recordo os dias a seguir à tragédia.
A dificuldade de muita gente explicar a razão para alguém com tanto sucesso, para um tipo que era luminoso quando nos sorria, que parecia estar de bem com a vida, bonito e imparável, pudesse desprender-se assim.
Perguntas e questões que só podem ser colocadas por quem não sabe o que é uma depressão, por quem não reconhece uma tristeza que nos zumbe aos ouvidos e nos sacode as entranhas, que nos obriga a mergulhar até ao fim de um poço onde não há luz possível.
3.
Não fomos amigos, mas tínhamos em comum um vazio.
Em 2018, na apresentação do livro que dediquei á minha mãe, recordo as lágrimas do Pedro e a nossa longa troca de mensagens.
Há qualquer coisa que fica dos tempos em que não nos lembramos, uma ausência de qualquer coisa que perdemos na
infância, qualquer coisa que nos molda e nos magoa ou nos faz gigantes.
O Pedro tinha isso.
Um desejo do que não tinha, não sabendo ele o que lhe faltava.
Uma procura incessante pelo que não era possível de encontrar.
Uma vontade de felicidade sabendo que tal luxo lhe estava vedado.
4.
Quando acontece tal tempestade perfeita não é simples – mesmo quando tudo parece ser simples, mesmo quando os filhos nos abraçam e a vida nos sorri.
Tenho saudades dos abraços que não demos.
Do que não lhe pude dizer, do que não lhe contei de mim, dos truques que usei para subir do poço para a luz.
Mas, ainda assim, independentemente de tudo, foi enorme.
E deixou cinco filhos que não têm de se sentir órfãos de um pai com demasiada pressa – têm de sentir orgulho de um pai que lhes provou o quanto a vida tem de imponderável, absoluto e ridículo.
Orgulho de um pai que abraçava como ninguém, que sorria como poucos. Uma das pessoas mais bonitas que conheci.
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