Todos os dias vejo um homem que me dizem que morreu

A história de um grande nome da Antena 1 que morreu em 2024. No entanto, continuo a vê-lo todos os dias que passo pelos corredores da rádio. Não tenho medo, estou apenas desperto.

Todos os dias vejo um homem que me dizem que morreu

A história de um grande nome da Antena 1 que morreu em 2024. No entanto, continuo a vê-lo todos os dias que passo pelos corredores da rádio. Não tenho medo, estou apenas desperto.

1.

A rádio passou a ser parte da minha vida.

Um orgulho caminhar pelos corredores da rádio pública, ouvir as conversas, imaginar as pessoas que não cheguei a conhecer, comover-me com pequenas coisas, sinais que me obrigam a pensar e a escrever.

Quero partilhar a estória mais bonita entre todas as que conheci nos corredores da Antena 1.

A estória de um homem que já morreu, mas que continua vivo.

É mesmo assim, ouviste ou leste bem, há um homem que morreu o ano passado e que, misteriosamente se mantém alerta,

vigilante e sempre preocupado com o destino da rádio e dos músicos portugueses.

2.

Conto-te.

Não conheci Armando Carvalheda, apenas o seu nome e um pouco do seu importante percurso.

Quando fui diretor do Rádio Clube Português quis fazer um Viva a Música que fizesse concorrência ao original, ao que Armando inventara e tornara património imaterial do país.

Já cá estava a fazer o Postal do Dia quando morreu. Foi uma surpresa pois achava que estava em forma, era um homem ainda novo, 73 anos. E continuava ativo na rádio.

Não havia músico algum que recusasse um convite seu.

Armando era a garantia de que a rádio nunca deixaria de ser rádio… que a vida continuaria a ser vida dentro do estúdio, com gente a tocar ao vivo… como nos tempos de ouro.

3.

É este Armando, o homem que inventou a primeira Rádio Pirata desmantelada pela PIDE, um dos fundadores do Pirilampo Mágico…

… é este Armando Carvalheda que continua vivo.

Ainda agora o vi antes de entrar no estúdio.

Porque quando a vejo, vejo-o a ele.

Ana Sofia, a sua filha, grande profissional da rádio, enorme produtora, que nestes corredores, decidiu continuar a vida dele, a luta dele, o desígnio dele.

4.

Agora é ela quem telefona aos músicos.

É ela quem organiza as suas vindas, as canções ao vivo, a vida dentro da rádio.

Ana Sofia Carvalheda que trabalhava com o pai, que era o seu primeiro e último suporte, a Ana que entrou para a rádio há mais de trinta anos, mas que hoje é a vida em dobro.

É o futuro, mas também o passado.

É ela, mas também ele.

É a vontade de rir e o peso do silêncio.

Ana Sofia, não te preocupes.

Eu não o conheci, mas sinto-o sempre que por ti passo.

Ouça o “Postal do Dia” em Apple Podcasts, Spotify e RTP Play.