1.
A minha flor preferida é camaleónica e triste.
Muda de cor em função dos humores e da qualidade do solo.
Pode ser azul e depois rosa, carmim, roxa e lilás.
Só as brancas são brancas do primeiro ao último dia.
Sim, no reino das minhas flores preferidas, ser branco é um sinal de pobreza…
…admirava-me pouco que tivessem inveja das irmãs coloridas e privilegiadas – sempre que as vejo e as observo, monocolores e previsíveis, sorrio com pena genuína.
2.
As hortênsias são maravilhosas e uma maldição…
…pelo menos é o que muitos afirmam como certeza irrefutável.
Mestres e maestrinas do Feng Shui desaconselham a amizade com elas dentro de casa.
Devemos afastá-las, a sua energia é negativa e condena-nos a prazo à solidão, expulsa da nossa vida as pessoas de quem gostamos, desejam-nos só para elas.
Se ouvíssemos o som que nos está vedado, sentiríamos as suas terríveis vibrações, um silvo agudo e silencioso que vai abrindo um buraco entre nós e os outros.
Até os samurais japoneses arrepiavam caminho na sua presença.
A mudança de cor simbolizava uma inconstância a que não se poderiam dar ao luxo. A sua lealdade, o seu coração, tinha de ser imutável e incorrupto.
3.
A hortênsia é especial.
Nasceu no Japão ou na China.
É bonita e arredondada, parece um buquê de um dia feliz de celebração de amor eterno.
Mas depois é o que te contei, uma maldição parecida à de Eva depois de comer a maçã no jardim que nos foi proibido.
Os poetas japoneses tradicionais utilizam o seu nome para simbolizar o que muda quando não estamos à espera, uma bipolaridade que jamais nos oferecerá a tranquilidade de uma viagem sem a angústia de um percalço inevitável.
É precisamente por tudo isto que gosto delas como são.
Loucas, possessivas, apaixonadas, impermanentes, camaleónicas.
As flores que me desejam só para elas.
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