1.
Há 500 anos não era óbvio que elas se juntassem para determinar as regras do que era ser culto, do que era ser e estar informado, do que era ter panache e ser influente.
Não era óbvio, mas aconteceu na corte portuguesa.
Mais precisamente na Corte de D. João III.
Poucos reis foram capazes de tantas aparentes contradições… embora haja quem defenda que foram provas de inteligência do Rei.
Por um lado, abriu a porta do país para que a Inquisição pudesse caçar o Diabo.
Por outro, enviou a Companhia de Jesus para evangelizar o “novo mundo” e encheu os cofres da Universidade de Coimbra para que nascessem novas elites.
2.
Foi naquela corte de malucos e génios, de facínoras e poetas, de assassinos em nome de Deus e imaculados anjos, que algumas mulheres ganharam um poder nunca visto antes e talvez nunca visto depois.
Dominavam o latim, o grego e o hebraico.
Sabiam ler música e declamar poesia.
Conheciam a retórica de salão e o conhecimento filosófico.
D. João III encantava-se com elas e não ligou nenhuma aos que lhe diziam que não podia ser, que era demasiado, que as mulheres não podiam ter tanto poder… não podiam aliás ter poder algum.
3.
Em Portugal, há 500 anos poderia ter nascido uma Mátria, como definia ou desejava Natália Correia.
Há cinco séculos, mulheres impuseram o seu pensamento – centenas de anos antes de Sophia, de Paula Rego, de Amália Rodrigues, de Beatriz Ângelo, de Ana de Castro Osório, de Maria
de Lurdes Pintassilgo, de Vieira da Silva, de Joana Vasconcelos e de tantas outras.
Naquela corte no ano 1500 e picos, existiam mulheres gigantes como Luísa Sigeia que os sábios diziam ser capaz de falar todas as línguas. Morreu com menos de 40 anos e trocou correspondência com o Papa, o que lhe garantia salvo conduto e poder. Era ouvida, discretamente, pelo Rei e pelos seus discípulos.
Como salvo conduto tinha Joana Vaz, professora da Infanta, filha do Rei e criadora de uma universidade clandestina, a universidade das jovens mulheres da corte que se juntavam para ler, saber, ter conhecimento e manejar a informação.
Como salvo conduto tinha Francisca de Aragão, a mais bela e desejada, a mais inacessível e culta, a melhor amiga da Rainha Catarina e a musa de Camões que, dizem as boas e más línguas só escreveu Os Lusíadas para que ela o reconhecesse como figura digna de a poder um dia abraçar.
4.
Hoje era isto.
Pedir-te para imaginar o que teria sido se aquelas mulheres tivessem lançado sementes de um poder que foi, depois delas, esvaziado.
Ao ler o excelente “A Corte das Mulheres”, do historiador André Canhoto Costa, ocorreu-me pensar num milagre português.
Há 500 anos, na Corte onde D. João III abriu a porta aos maluquinhos da Inquisição, mulheres construíram discretamente o seu próprio poder.
Eram a luz, como o conhecimento é sempre.
E serviram para que o Diabo mascarado de Deus não bebesse todo o vinho.
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