1.
Na vila de Barrancos as mulheres têm os olhos verdes ou cor de avelã.
São diferentes de todos os lugares do Alentejo, como se fossem habitantes de um outro planeta ou tivessem acabado de chegar de Madrid, Londres ou Nova Iorque.
Não consigo perceber o fenómeno, mas sei que é assim.
Como explicar e entender que no lugar mais isolado, no fim da eterna planície, na esquina do último sobreiro, exista um sítio que inventou uma nova língua e mulheres que se movimentam de uma outra maneira, com olhos que se confundem a faróis de nevoeiro.
2.
Consegues visualizar Barrancos no mapa?
Já lá foste?
Estão mais próximos de Espanha do que de Portugal…
…veem mais televisão espanhola do que portuguesa, dançam mais flamenco do que cantam fado ou até Cante Alentejano, gostam de tourada até “la muerte”, mas nunca desejaram ser outra coisa que não portugueses.
Amareleja fica a 30 quilómetros, julgo que é o sítio mais próximo.
Moura a 50.
O caminho para lá chegar é difícil e a estrada única.
3.
Conheci há uns anos duas mulheres de Barrancos, duas irmãs, a Cármen e a Patrícia.
Lindas.
Das pessoas mais bonitas que conheci.
Fui pela primeira vez a Barrancos nesse final de juventude.
E fiz muitas perguntas.
Porquê?
E elas divertidas a explicaram que foram os soldados franceses ou o então terá sido determinante estarem na fronteira entre países e mundos, terem nascido num lugar de paixão, de isolamento, de mistura.
4.
Ou de Deus.
Será Barrancos um lugar de anjos?
Um paraíso perdido que apenas é conhecido na Rota dos Querubins?
Terá sido Deus nas suas experiências?
Não sei, sou capaz de aceitar.
O certo é que naquele lugar perdido no fundo dos fundos do Alentejo, há um povo aparentado aos Elfos.
Com segredos que não nos revelam…
…e ainda bem.
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