Carta ao filho de José António Saraiva

José António Saraiva morreu há quase um mês. O postal de hoje é uma carta ao seu filho jornalista. Um filho que o idolatrava, um filho que era o prolongamento do pai.

Carta ao filho de José António Saraiva

José António Saraiva morreu há quase um mês. O postal de hoje é uma carta ao seu filho jornalista. Um filho que o idolatrava, um filho que era o prolongamento do pai.

1.

Caro José Cabrita Saraiva

Fui surpreendido com a morte do teu pai, não o sabia doente…

… devo dizer-te que não imaginava sequer que pudesse ficar doente, a imagem que tenho é a de um homem provocatoriamente vivo, provocatoriamente interessado em contaminar a realidade com uma visão diferente da verdade aceite pela maioria.

O teu pai era um homem alto e magro.

Percebi quando com ele trabalhei que eu próprio era mais alto, mas não parecia que o fosse.

Era sibilino e difícil – em alguns momentos passei um mau bocado quando estive nessa sua última redação, mas nunca consegui deixar de o ouvir e respeitar.

Sempre me manteve à distância e não desejava que eu o substituísse na direção do Sol – como fora definido pela administração. Pela minha parte nunca tive dúvidas acerca do que estava em jogo e ainda menos o condenei por defender à sua maneira o jornal que fundara.

Ganhou legitimamente essa batalha.

2.

Passaram uns vinte dias pela notícia da sua morte.

E quero dizer-te que o teu pai foi uma das pessoas mais marcantes que conheci – e uma das mais singulares figuras da história do jornalismo em democracia.

Era autocentrado, mas com uma visão coerente e livre.

Era reacionário e paradoxal.

Era culto, mas atraído pelo que o povo consumia.

Cultivava o estilo e a estética, os seus textos eram inconfundíveis.

Era arrogante, mas diplomata.

Picuinhas, mas bastas vezes genial.

Louco e pragmático, o que é uma contradição nos termos.

E quando subíamos ao seu gabinete tornava-se quase impossível interrompe-lo nos seus monólogos de que tenho saudades, monólogos em que aprendi bastante.

3.

O teu pai aproveitou a última crónica para voltar a lixar a cabeça aos jornalistas dizendo que nunca se assumiu ou viu como tal – curiosamente o mesmo exercício de Cavaco Silva em relação à política.

Mas era um jornalista.

Um dos melhores que conheci…

… apesar de não concordar com metade das suas opções, o que me levou à loucura naqueles noves meses em que fui diretor executivo do Sol totalmente esvaziado de poder.

No entanto, todas as opções iam ao encontro de uma lógica inquebrantável – e quem era eu para o colocar em causa, ele que foi diretor do Expresso 22 anos, o diretor com mais sucesso da história do jornal fundado por Pinto Balsemão.

4.

Tens orgulho no teu pai.

E toda a razão para isso.

Fiquei triste, confesso-te.

Faltam pessoas realmente livres e heterodoxas.

Que não pensem o que é politicamente correto, à esquerda e à direita – vemos na política, nos jornais e até na cultura gente a pensar basicamente o mesmo, sem rasgo, sem coragem e sem a arrogância de acreditar que têm um caminho próprio.

José António Saraiva tinha tudo isso.

Com ele morre certamente um tempo que talvez seja impossível de voltar.

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