Já pensaste no teu nome quando te chamam?

O nome que carregamos diz muito do que somos. Já pensou no seu nome quando o chamam? O "Postal do Dia" é sobre as nossas vidas e os nossos nomes.

Já pensaste no teu nome quando te chamam?

O nome que carregamos diz muito do que somos. Já pensou no seu nome quando o chamam? O "Postal do Dia" é sobre as nossas vidas e os nossos nomes.

1.
Quando nasci a família chamava-me Miguel.

Nos primeiros leites, nas primeiras comidinhas à boca, nos primeiros cocós, nos primeiros ralhetes era Miguel que me diziam ao ouvido.

Quando aprendi a andar, quando a avó chorou por me ver começar na primária, quando jogava à bola com os meus amigos na rua, quando me entristeci ou me encantei com a minha mãe, quando abracei ou me despedi do meu pai, a ninguém ocorria o nome Luís.

2.

E ainda menos Luís Osório.

Esse era o nome do irmão do meu pai, o tio Luís, o verdadeiro Luís Osório.

Doutorou-se em Educação Física, era professor no Fundão, casara com a tia Lena… admirava-os profundamente e ficava feliz quando a família me dizia:

“Miguel, estás cada vez mais parecido com o Luís”.

3.

Casei pela primeira e a Zé chamava-me Luís.

Quando comecei a escrever nos jornais, não sei bem porquê, assinei Luís Osório.

Os anos passaram, os avós e pais morreram, e hoje quase ninguém me conhece por Miguel.

É como se tivesse tido duas vidas.

É como se o Luís fosse uma marca – por vezes, numa autoironia assino LO nas redes sociais.

Não sou bem eu, sou apenas o que resta do que fui.

Mais gostado do que nunca, mas não é bem ser gostado como antes, são bons elogios e maravilhosos abraços de tanta gente que não me conhece pessoalmente, mas ninguém me chama Miguel e ainda menos há quem olhe o meu prato à espera do momento de o encher novamente com amor e proteção.

4.

Luís Osório é o meu nome, mas não o que sou.

Mas não me chames Miguel pois também já não o sou.

A vida, a tua e a minha, é um desafio interessante, paradoxal, às vezes inominável, outras um ofício de esperanças.

Falo-te de mim para pensares sobre ti.

Sobre o que és quando te pensas.

Sobre o que és quando dizem ou dizes teu nome.

Não me reconheço no Luís quando mergulho para dentro, mas já não encontro o Miguel em qualquer parte da minha solidão.

Sou talvez “pai”.

Quando os meus quatro me chamam é isso que me chamam.

“Pai”.

A mais pequenina, “papá”.

Não é afinal o nome mais bonito?
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